VocAbulário
 
 ARGUMENTAÇÃO1 E ARGUMENTAÇÃO2
A distinção entre duas formas de olhar para a argumentação foi introduzida por O’Keefe (1977: 121) da seguinte forma: «argumentação1 é algo que uma pessoa faz (ou oferece ou apresenta ou enuncia), enquanto argumentação2 é algo que duas ou mais pessoas fazem (ou em que se envolvem)».

Ou seja, uma argumentação tanto pode ser vista como uma iniciativa discursiva tomada como algo de consumado e, poderíamos supor, com um ónus persuasivo, como pode ser considerada como uma situação de interacção cuja especificidade reside na existência de um intercâmbio caracterizado por uma oposição e por uma sequência de turnos de palavra. A argumentação, no sentido de argumentação1, pode assim ser associada à expressão «argumentar que» (por exemplo, «o João argumentou que devíamos ver o Citizen Kane»), estando o sentido de argumentação2 ligado à expressão «argumentar sobre» (por exemplo, «eles estiveram a argumentar sobre a energia nuclear»).

O caso paradigmático para perceber a argumentação1 — propõe ainda O’Keefe (1982: 17) — é que possamos separar o acto comunicativo em que ele é veiculado (ou seja, o elaborar uma argumentação, ou «argument-making») e nele possamos distinguir e explicar linguisticamente a presença de uma tese e de uma ou mais razões de suporte: «portanto, a minha convicção é a de que casos exemplares de argumentação1 são aqueles nas quais podemos dizer ‘a tese é tal e tal e as razões são isto e aquilo’. Por conseguinte a minha visão é que os casos paradigmáticos da argumentação1 são aqueles que envolvem teses linguisticamente explicáveis e uma ou mais razões linguisticamente explicáveis». Já os casos paradigmáticos de argumentação2, na visão de todos dias, são para O’Keefe (1982: 19), «interacções nas quais desacordos evidentes e prolongados ocorrem entre os que interagem», sendo que a palavra «prolongados» significa que há uma persistência no desacordo e que este não é apenas um aspecto passageiro ou ocasional da interacção.

Se quisermos enquadrar esta distinção noutra terminologia poderíamos dizer que a focalização na argumentação1 corresponde a uma abordagem monológica e a uma incidência que privilegia essencialmente a estrutura lógico-linguística (localiza a argumentação a partir de uma determinada estrutura de articulação e de encadeamento presente numa produção linguística), enquanto a focalização na argumentação2 corresponde a uma imagem empírica do argumentar como conflitualidade entre os que interagem, independentemente de, nessa interacção, serem elaborados ou não argumentos no sentido da argumentação1.

Assim, exemplifica O’Keefe (1982: 10): «ou então podemos ver um pai abeirar dois filhos que manifestam um desacordo evidente e prolongado sobre os direitos a um brinquedo — e que não estão contudo a fazer [argumentos no sentido da] argumentação1 — e não ficaríamos surpreendidos em ouvir o pai dizer ‘parem de argumentar’». Destas distinções entre argumentação1, o fazer uma argumentação (ou «argument-making») e argumentação2, O’Keefe retira três consequências principais. Por um lado, a distinção entre argumentação1 e o fazer uma argumentação (ou «argument-making»), permite perceber diferentes focalizações do fenómeno. Enquanto alguns teóricos se focam no fenómeno do «fazer uma argumentação» e o analisam enquanto actos de fala (assim Jackson e Jacobs), outros focalizam-se na argumentação1 enquanto produtos cuja estrutura pode ser esquematizada (assim o modelo de Toulmin). Por outro lado, através desta mesma distinção pode ficar a perceber-se em que sentido a argumentação1 pode ser descrita independentemente das particularidades da sua ocorrência. Finalmente, a distinção entre argumentação1 e o fazer uma argumentação (ou «argument-making») pode potencialmente ser esclarecedora do modo como esta última funciona na interacção.

Em suma, conclui O’Keefe(1982: 20),  «aquilo que estas três consequências mostram, assim me parece, é que a distinção entre argumentação1 e o fazer uma argumentação (ou «argument-making») é uma distinção potencialmente útil na medida em que pode não apenas ajudar a distinguir mais claramente os interesses que pode haver no estudo da argumentação1, como também providenciar uma análise mais cuidadosa quer da argumentação1, quer do fazer uma argumentação [argument-making]».

Esta diferenciação entre argumentação1 e argumentação2  — que é também formulada por Toulmin, Rieke & Janik (1984: 14-15) que diferenciam entre «cadeias de razões» e «interacções humanas» — deu origem a uma outra terminologia segundo a qual, no primeiro caso, estamos a ver a argumentação como produto e, no segundo, como processo, tendo-se ainda acrescentado a estas duas ideias uma outra possibilidade, ou seja, a de ver a argumentação como procedimento.

Considerando estas três possibilidades, e acolhendo as suas potencialidades para o estudo da argumentação, J. Wenzel (2006: 11) ligou-as, respectivamente, a três perspectivas com se pode abordar a argumentação: a lógica (que se debruça sobre a argumentação enquanto produto), a retórica (que se debruça sobre a argumentação enquanto processo) e a dialéctica (que se debruça sobre a argumentação enquanto procedimento que organiza as interacções argumentativas). Temos assim, nas palavras deste teórico, «processo retórico, procedimento dialéctico e produto lógico».
 
© Rui GrÁcio 2011
Rui Alexandre Grácio