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A argumentação ad verecundiam é uma forma de argumentar que faz apelo à autoridade.
Numa perspectiva que encara a razão como razão eterna e que, no seguimento de Descartes, considera que ela é uma faculdade universal dos homens, é suposto que possamos fundar as argumentações na Razão, o que significaria ser capaz de a fazer a levar a um plano demonstrativo
capaz de fazer transparecer a evidência do seu processo. A ideia é a de que, se todos pensarem bem, todos pensarão da mesma forma e chegarão às mesmas conclusões. É aliás neste sentido que Descarte escreveu o seu famoso
Discurso do Método para bem conduzir a razão e encontrar a verdade nas ciências. Dito de outra forma, se todos pensarem bem, a única autoridade em que se devem fundar as conclusões é a autoridade racional.
No entanto, na prática, isso significaria sermos capazes de percorrer todos os elos do raciocínio que levam a uma conclusão, independentemente do assunto tratado, o que se revela, de facto, impossível. Acontece então que temos de recorrer a pessoas credíveis e nela nos basearmos para sustentar certas conclusões. A argumentação ad verecundiam faz justamente apelo à autoridade de pessoas cuja credibilidade é reconhecida e que parece ser suficiente para funcionar como justificação.
A argumentação pelo recurso à autoridade dos especialistas tornou-se hoje uma prática comum. Recorremos a estudos e aos seus resultados para fundamentarmos a
nossa opinião, consideramos como mais credíveis as opiniões dos especialistas e fazemos referências a pessoas «notáveis» como exemplo que deve ser seguido. Nos tribunais, são convocados especialistas de vários tipos para prestarem testemunho, nos anúncios é invocado o «comprovado cientificamente» para credibilizar o produto e nos reclamos de rua o mesmo acontece,
associando-se às mensagens pessoas de notoriedade pública. De um ponto de vista lógico, o apelo à autoridade não é considerado um argumento
real, mas apenas aparente. Querer estabelecer uma conclusão fundamentando-a no «porque Aristóteles o disse», por exemplo, é incorrer numa falácia, pois o recurso a esse tipo de autoridade não permite estabelecer logicamente a verdade ou a falsidade de uma proposição. O princípio do magister dixit é um elemento exterior à inferência lógica, pelo que a sua utilização é falaciosa. No entanto, a reprovação do apelo à autoridade foi revista pelos lógicos informais que consideram que podem haver apelos à autoridade apropriados e apelos à autoridade não apropriados. Serão apropriados quando a autoridade é credível porque credenciada, ou seja, é efectivamente reconhecido como alguém que é especialista num determinado campo. Não será apropriado quando se invoca o prestígio de alguém que nada tem a ver com o assunto em questão: é o exemplo de associar a figura de um renomado jogador de futebol à segurança da boa gestão de uma conta bancária, ou à escolha do melhor óleo para o seu carro.
Como acontece com a maior parte das estratégias argumentativas em ad, poderemos dizer que elas fazem parte das estratégias de credibilização do discurso. Muitas vezes são mais eficazes e outras pouco eficazes na sua influência. Tal depende do estatuto social e da relevância que quem é invocado como autoridade tem perante um determinado auditório.
O único problema que realmente existe na argumentação ad verecundiam é o de ela funcionar como clausura do processo argumentativo, apresentando-se como última palavra e obrigando os participantes a uma obediência que se transforma num silêncio. Nesse sentido, que é um caso extremo, ela leva ao termo da interacção argumentativo porque limita intransigentemente o que possa ser colocado em
questão. E, sem assunto em questão em torno do qual se possam estabelecer discursos e contra-discurso, não haverá argumentação.
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© Rui GrÁcio 2011
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