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VocAbulário
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O conceito de entimema foi cunhado por Aristóteles (384-322 a.C) e deve ser considerado a partir da distinção que este filósofo faz entre o carácter constringente das provas lógicas que, operando segundo regras inferenciais que conferem às conclusões do raciocínio um carácter necessário, são por isso demonstrativas (e o seu modelo é o raciocínio silogístico) e as provas retóricas que se aplicam a «questões sobre as quais deliberamos e para as quais não possuímos artes específicas» (Retórica, 1357a), ou seja, em que o problema da deliberação se coloca num quadro em que não há regras sistemáticas.
Assim, o entimema surge como uma espécie de silogismo, ou seja, como um «silogismo retórico», caracterizado não pelo certo mas pelo provável. Esta dimensão de provável não significa que ele seja um parente pobre do silogismo demonstrativo. Quer antes
dizer que se articula com as exigências práticas da comunicação e com os propósitos da retórica, definida como «a capacidade de descobrir o que é adequado a cada caso com o fim de persuadir» (Retórica: 1355b), salientando ainda Aristóteles (ponto a tónica na selectividade dos recursos, mais tarde designada por inventio), que «é também evidente que ela [a retórica] é útil e que a sua função não é persuadir mas discernir os meios de persuasão mais pertinentes para cada caso» (ibidem).
Ora, como o persuasivo é sempre persuasivo para alguém, o raciocínio entimemático está não só directamente ligado à noção de auditório e ao princípio da adaptação do discurso àqueles para quem se discorre como também ao assunto específico que está a ser tratado. O raciocínio entimemático desenvolve-se assim contando entre as suas premissas com aquilo que em princípio é admitido pelo auditório e permite fazer a economia da sua explicitação. Dito de outra maneira, o raciocínio entimemático pressupõe assunções tácitas supostamente partilhadas pelo auditório e faz avançar o discurso tratando-as como não problemáticas.
Posteriormente a Aristóteles tendeu a definir-se o entimema como um silogismo no qual umas das
premissas está omitida. No entanto isso corresponde a uma visão lógica do entimema (que assim deve ser reconduzido à forma de silogismo) que não contempla verdadeiramente a sua natureza retórica, a qual se liga a situações práticas de comunicação persuasiva e à centralidade que nesta desempenha a adaptação ao auditório e às circunstâncias.
Uma das razões do uso da raciocínio entimemático pode ser, salienta Aristóteles, o de «tratar temas sobre os quais devemos deliberar e sobre os quais não possuímos técnicas, perante auditores que não têm a faculdade de inferir por numerosos degraus e de seguir um raciocínio desde um ponto afastado» (Retórica: 1357a). Noutra passagem escreve também que «em retórica convém não fazer deduções de muito longe, nem é necessário seguir todos os passos: o primeiro método é obscuro por ser demasiado extenso, o segundo é pura verborreia, porque enuncia coisas evidentes» (Retórica: 1395b).
Poderemos dizer, também, que a forma entimemática de raciocínio, que Aristóteles considera característica da retórica, congrega uma dupla função: lógico-dedutiva e retórica. Lógico-dedutiva porque propõe que se infira uma conclusão a partir de premissas, que é o esquema básico do silogismo; ao assumir tacitamente certos pontos de acordo e deixando que
esse implícito seja preenchido pelo auditório, a inferência retórica leva a que aquele se envolva no processo de raciocínio e o sancione, produzindo simultaneamente um processo de auto-convencimento e
emitindo um sinal de acordo para o orador. A importância do raciocínio entimemático pode assim ser ligada ao
jogo do implícito e do explícito que ocorre nas situações de comunicação.
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© Rui GrÁcio 2011
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