![]() |
![]() |
||||
|
VocAbulário
|
|
||||
|
|
|
|
|||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
Se, numa visão interaccionista, uma situação de argumentação se caracteriza pela presença de um discurso e de um contra-discurso, o seu implícito argumentativo é o assunto em questão em torno da qual se organiza a dissensão, permitindo distinguir perspectivas diferenciadas que vão sendo tematizadas numa sequência de turnos de palavra. Notar-se-á, também, que a interacção não poderá ser dissociada da invocação e do confronto de critérios normativos que permitem configurar e fazer prevalecer a perspectiva de cada
um dos interlocutores relativamente à do outro.
Se, por outro lado, considerarmos que à discursividade é inerente a perspectivação, optando por uma perspectiva semântico-argumentativa, diremos os implícitos remetem sempre para processos selectivos de filtragem e de saliência através das quais se estabelecem posições. Neste sentido, os discursos dos participantes têm de ser simultaneamente interpretados quer a partir do que é dito explicitamente, quer do que permanece implícito, seja como pressuposto ou como subentendido.
Assinale-se, contudo, que interpretar não é o mesmo que produzir um contra-discurso sob a tensão do discurso do outro. Numa visão retórica, que traz a primeiro plano a sociabilidade da linguagem e a associa ao
seguimento de regras, a necessidade do implícito pode ser explicado como uma forma de evitar o contra-discurso e de poder
ser responsabilizado por algo que é sempre possível negar ter-se dito. Trata-se, neste sentido, de deixar ao interlocutor «enfiar o barrete» sem o locutor, se acusado, disso poder ser responsabilizado. É neste sentido que Ducrot (2003: 4-12) afirma que «temos frequentemente a necessidade de, simultaneamente, dizer certas coisas e de
poder fazer como se não as tivéssemos dito, de as dizer, mas de tal forma que possamos recusar a
responsabilidade da sua enunciação. (...) Na medida em que, apesar de tudo, pode haver razões para falar destas coisas, torna-se necessário ter à sua disposição modos de expressão implícita, que permitem deixar entender sem arcar com a responsabilidade de ter dito.
Uma segunda origem possível da necessidade do implícito deve-se ao facto de uma afirmação explicitada se tornar, por isso mesmo, um tema de discussões possíveis. Tudo o que é dito pode ser contradito. De forma que não seria possível anunciar uma opinião ou um desejo sem as sujeitar ao mesmo tempo às objecções eventuais dos interlocutores. Como foi frequentemente sublinhado, a formulação de uma ideia é a primeira e decisiva etapa para a sua colocação em questão. É pois necessário, para toda a crença fundamental, trate-se de uma ideologia social ou de uma posição pessoal, encontrar, se ela se exprimir, um meio de expressão que não a desenrole, que não a torne num objecto assinalável e, por conseguinte, contestável. (...) O problema geral do implícito (...) é o de saber como é que se pode dizer algo sem contudo aceitar a responsabilidade de o ter dito, o
que significa beneficiar simultaneamente da eficácia da palavra e da inocência do silêncio».
Esta é contudo uma posição que se revela problemática pois, como escreve Henry (1992: 75), Ducrot «parte da ideia de que existe uma necessidade ao mesmo tempo social e psicológica de ilusão e demagogia, conscientemente desejadas, para fazer a hipótese de que a língua deve necessariamente ser tal que se torne possível essa produção voluntária de ilusão e de demagogia». A questão do implícito deve não ser apenas colocada no plano da intencionalidade da língua, mas enquadrada nas condições de produção do sentido através do discurso. Ora, vista deste ângulo, pode dizer-se que não há discursos sem implícitos. Se Ducrot distingue entre os implícitos do enunciado (ou seja, os pressupostos que podem ser estabelecidos apenas
com base na análise linguística) dos implícitos da enunciação (para os quais há que convocar elementos contextuais e que podem ser designados por
subentendidos), podemos contudo dizer, mais amplamente, que todo o uso da
linguagem implica implícitos culturais. Gadamer (1977), por exemplo, pôs em evidência que o uso da linguagem é inseparável de pré-conceitos, ou conceitos prévios que, sendo decisivos para a inteligibilidade, não são postos, mas pressupostos. Pelo seu lado, Grize falou de pré-construídos culturais, ou seja, depósitos que as representações sociais deixam na língua e que são determinantes no feixe de possibilidades que se geram em torno do uso das
palavras (abrindo um campo de predicados).
Também os teóricos franceses da Análise do Discurso falam de pré-construídos, de discursividade transversa e de interdiscurso. Sobre esta última noção escreve Pêcheux (1997: 167): «o interdiscurso enquanto discurso-transverso atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria prima na qual o sujeito se constitui como ‘sujeito falante’, com a formação discursiva que o assujeita. Nesse sentido, pode-se bem dizer que o
intradiscurso, enquanto ‘fio do discurso’ do sujeito, é, a rigor, um efeito do interdiscurso sobre si mesmo, uma ‘interioridade’ inteiramente determinada como tal do ‘exterior’».
Neste sentido, o implícito não é apenas uma propriedade da língua, mas é constitutivo da própria possibilidade de discorrer, de perspectivar e da própria oposição de discursos, ou seja, no caso da argumentação, da tematização de um conflito de interpretações a propósito de um assunto em questão.
Podemos, pois, dizer que os implícitos dos discursos dos participantes são os quadros a partir dos quais eles argumentam e cuja partilha procuram forçar. Desta forma, e se quisermos focalizar a argumentação no plano micro do raciocínio, monologicamente considerado, podemos dizer que o entimema é um exemplo de uma raciocínio argumentativo que se caracteriza justamente pela presença de um implícito (um dos seus elementos não é expresso) que é tomado como partilhado e pressuposto. Afinal, para bom entendedor meia palavra
basta e, visando os argumentadores a possibilidade prática de progressão em torno de algo em que ambos se mostram interessados, entrar num processo de
regressão ao infinito faria diferir eternamente o que faz questão e impossibilitaria o assunto de ser focalizado e tematizado através de posições que assim nunca o chegariam a apropriar.
|
|
||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|||||
|
|
|
||||
|
|
|||||
|
© Rui GrÁcio 2011
|
|
||||
![]() |
|||||
|
|
|
|
|
|
|