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Sinopse
Herdeira de movimentos e registos tão diversificados (...) Maria Toscano de todos se demarca na edificação de uma voz que pretende nítida e singular. Específico é (...) o modo como articula o seu olhar sobre o social com a escorreita e
envolvente descrição do mundo dos afectos (não nos podemos esquecer dos vários excertos que falam do relacionamento dos lobos com as lobas e destas com as
suas crias), bem como a forma como às páginas lança os seus versos, quais ondas que, em sua cadenciada musicalidade, nos
incentivam o cismar em prol de um lugar que queremos próximo e sem escolhos de qualquer tipo.
(Victor Oliveira Mateus)
Apesar do livro estar dividido em sete partes, o facto é que ele possui uma unidade própria que é dada pelo movimento de criação da escrita poética como construção daquilo a que chamaria uma rede semântica generativa.
Esta rede cruza as palavras com os seus ecos, os sons e grafias com evocações e imagens, continuidades com rupturas semânticas, expectativas com o inesperado, o vago e sugestivo com o repentinamente
incisivo.
A arte desta escrita reside, em grande medida, pelo menos assim me parece, na
capacidade de construir um sincretismo que me atreveria a designar por
narrativo simultaneamente guiado pela
• escuta da língua e das palavras,
• por referências a elementos da memória colectiva codificadas em estratificações linguísticas
• e, finalmente, pela irrequietude reflexiva de um pensamento que se desdobra em
movimentos elípticos e que se vai serenando, passo a passo, nos agenciamentos que vai
produzindo mas nos quais nunca se encerra nem encerra o leitor.
A construção da rede semântica tecida neste livro remete para os procedimentos mais imediatamente
inerentes à criação: os procedimentos de associação e os procedimentos de dissociação.
Parecem-me ser eles, com efeito, o interface que tanto serve de bússola à navegação criadora deste livro como à navegação que aos leitores é proposta.
Neste sentido, esta pequena obra corre o risco dos limiares e explora a dúbia zona cinzenta das expectáveis certezas. Por isso é um livro de poesia e, como tal, um exercício desafiante de liberdade.
Navegar é preciso, como diz uma conhecida frase. E, direi eu, é tanto mais preciso quando as saturadas vestes que já nos agrilhoam nos instam a procurar aí onde só a reinvenção nos devolve de novo ao caminho por fazer.
Obrigado pelo teu livro e pela incendiária chama poética com que nos atinge, nos desperta e nos acolhe.
(Rui Grácio)
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