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VocAbulário
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Os dois procedimentos fundamentais nos processos argumentativos são a ligação e a dissociação de noções.
Os procedimentos de ligação são esquemas que «aproximam elementos distintos, permitindo estabelecer entre estes últimos uma solidariedade que visa quer estruturá-los, quer valorizar positiva ou negativamente um relativamente ao outro» (Perelman e Olbrechts-Tyteca, 1988: 255). Refira-se ainda que estes elementos,
tornados solidários pela técnica de ligação, podem ser considerados, à partida, como independentes.
Os procedimentos de dissociação são «técnicas de ruptura com a finalidade de dissociar, de separar, de dessolidarizar,
os elementos considerados como um todo ou, pelo menos, como um conjunto solidário no seio de um mesmo sistema de pensamento: a dissociação terá por efeito a modificação de um tal sistema, modificando certas noções que nesse sistema constituem peças mestras» (Perelman e Olbrechts-Tyteca, 1988: 255-256). Acrescente-se, de acordo com esta
definição, que os processos de dissociação consistem numa tentativa de reordenar de forma mais profunda e coerente aquilo
que surge como incompatível, fazendo desaparecer, pela dissociação, essa incompatibilidade. Refira-se ainda que estes dois tipos de procedimento
são
complementares (e, na medida em que ao mesmo tempo que se unem elementos diversos num todo bem
estruturado, dissociamo-los do fundo neutro do qual os retiramos) estas duas técnicas operam em simultâneo, ainda que, em cada situação, se dê o ênfase a uma ou a outra.
Tendo em consideração estes dois procedimentos fundamentais, Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, no Traité de l’argumentation. La nouvelle rhétorique é propõe uma tipologia tripartida de argumentos, dividida em argumentos quase lógicos, os argumentos baseados na estrutura do real (ligações de sucessão e ligações de coexistência) e os argumentos que fundam a estrutura do real. Esta classificação tripartida assenta na ideia de que cada um deles retira a sua força da possibilidade de fazer aderir através de diferentes formas de influência.
A força dos argumentos quase lógicos está directamente relacionada com a sua proximidade, ou com a similitude da sua
estrutura, dos raciocínios de tipo formal, lógico e matemático.
A força dos argumentos baseados na estrutura do real reside na característica de partirem de coisas reconhecidas para introduzir outras que se querem
ver admitidas.
A força dos argumentos que fundam a estrutura do real reside essencialmente na sua capacidade de proceder a generalizações, procurando estabelecer regras e princípios.
Dos argumentos quase lógicos fazem parte:
• Contradição e incompatibilidade. Numa argumentação, mais do que falar em contradição lógico-formal, de contradição entre proposições, tem sentido falar em incompatibilidade de posições, incompatibilidade essa que é sempre relativa a circunstâncias contingentes. Como estratégias para lidar com incompatibilidades podem adoptar-se três atitudes: a lógica, a prática e a diplomática. Na medida em que não se trata de uma contradição lógica, a acusação de incompatibilidade, mais do que remeter para o absurdo, remete para o ridículo (provocando um «rir de exclusão» e o recurso à ironia). Exemplo : «Não percebo como é que uma pessoa que diz ter preocupações ecológicas está sempre a advogar o desenvolvimento da indústria automóvel».
• Identidade e definição. Trata-se de processos de identificação (de um termo ou de noções) levados a cabo através de definições que estabelecem uma identidade entre a definição e aquilo que é definido. Podem ser realizados através de definições normativas (como se deve usar o termo ou a noção), descritivas (como é usado em contextos específicos), condensadas (elementos essenciais da definição descritiva) e complexas (que incluem aspectos das definições anteriormente referidas). Exemplo: «Dizer a verdade é, na realidade, ser honesto e justo» ou «Um euro é um euro».
• Reciprocidade. Procedimento que consiste em tratar da mesma forma situações que são contrapartes uma da outra, criando uma sensação de simetria que incide sobre o que é comum e que coloca em segundo plano o que as diferencia. Ex.: «O que dá gosto ensinar dará também gosto aprender».
• Transitividade. Procedimento que consiste em derivar, de um certo tipo de relação estabelecido entre dois elementos, a existência da mesma relação no que diz respeito a um terceiro elemento.Exemplo.: «Os amigos dos meus amigos meus amigos são».
• Inclusão da parte no todo. Procedimento que consiste em articular as partes enumeradas ou referidas num
todo que as engloba. Exemplo: «A ciência não é senão um dos aspectos da sabedoria».
• Divisão do todo em partes. Procedimento que consiste em desmembrar o todo focando as
partes que o constituem. Exemplo: «É especialmente interessante como neste livro a trama se vai construindo capítulo a capítulo».
• Comparação. Procedimento que consiste em considerar vários elementos, situações ou objectos com vista a avaliá-los uns relativamente aos outros. Exemplo: «Os liberais tem uma forma de pensar mais arejada que os conservadores».
• Sacrifício. Procedimento que consiste em referir aquilo de que se estar disposto a
prescindir para alcançar um determinado fim. Exemplo: «Por ti até deixava de fumar»
• Probabilidades. Procedimento que consiste em extrapolar a partir de um padrão de análise a importância de um acontecimento e verosimilhança do seu aparecimento. Exemplo: «Se deixaste o carro estacionado nessa rua, bem podes contar com uma multa na
caixa do correio».
Dos argumentos baseados na estrutura do real (ligações de sucessão) fazem parte:
• Ligação causal. Procedimento que consiste em aproximar dois elementos (acontecimentos, objectos,
processos) através de uma relação causal. Exemplo: «Sem um bom marketing os produtos não vendem» ou «O estado em que nos encontramos é resultado das politicas desastrosas do Governo».
• Argumento pragmático. Procedimento que consiste em avaliar algo em função das suas consequências. Exemplo: «Se não sensibilizarmos as pessoas para as boas práticas de cidadania a vida tornar-se-á um caos».
• Desperdício. Procedimento que incita a continuar algo em função do esforço já desenvolvido. Exemplo: «Todos os esforços de redução dos efeitos de estufa se tornariam vãos se a legislação não os regulamentar com rigor».
• Direcção. Procedimento que consiste em criticar actos ou acontecimentos com base no
perigo da tendência para que orientam. Exemplo: «Se os professores aceitarem os novos estatutos da carreira docente em breve serão completamente desautorizados».
• Desenvolvimento ilimitado. Procedimento que consiste em dizer que os processos estão sempre em aberto e que a sua revisão só os enriquece, não colocando limites a uma direcção. Exemplo: «Se se verificar que o estatuto da carreira docente é mau para os professores, ele pode sempre ser modificado e aperfeiçoado».
Dos argumentos baseados na estrutura do real (ligações de coexistência) fazem parte:
• Pessoa e actos. Procedimento que consiste em avaliar alguém a partir de uma articulação entre o carácter e os seus actos. Exemplo: «A falta de transparência das suas declarações mostram bem a natureza do seu carácter».
• Grupo e seus membros. Procedimento que consiste em perspectivar o grupo pelas pessoas que dele fazem
parte ou as pessoas pelo grupo que integram. Exemplo: «Naturalmente que, sendo adepto do F.C.Porto, não pode deixar de ter um discurso ganhador» ou «É bastante óbvio que as posições que o Sr. Alberto apresenta se inserem numa perspectiva altamente
conservadora».
• Acto e essência. Procedimento que consiste em considerar a natureza de algo a partir das suas
manifestações ou as manifestações como índice de um padrão. Exemplo: «O modo de dar ordens mostra bem que ele é um verdadeiro tirano».
• Relação simbólica. Procedimento que consiste em estabelecer uma relação de participação entre um símbolo ou um referente e uma determinada realidade. Exemplo: «Ouvir a entoação do hino à minha chegada tornou-me mais consciente da dimensão patriótica da minha missão».
• Dupla hierarquia. Procedimento que relaciona os termos de uma hierarquia aceite com os termos de
uma discutida. Exemplo: «Toda a posição extremista é nefasta, mas na luta contra ao terrorismo há que fazer guerra radical»
• Grau e ordem. Procedimento que considera actos e acontecimentos em termos de diferença de quantidade e de qualidade. Exemplo: «Não é comparável as vezes que um e outro falharam o cumprimento dos seus objectivos» ou «Só custa a primeira vez».
Dos argumentos que fundam a estrutura do real fazem parte:
• Exemplo. Procedimento que consiste em partir de casos concretos para proceder a
generalizações. Exemplo: «Daquela vez que estávamos zangados, acabamos por falar e resolvemos o problema. Não achas mesmo que o melhor conversarmos?» ou «As três vezes que o Governo baixou os impostos, o poder de compra aumentou. Não é agora altura para os aumentar».
• Ilustração. Procedimento que usa um caso particular para suportar um padrão já estabelecido. Exemplo: «Quanto mais ansiedade, pior desempenho. Lembras-te daquela vez que bloqueaste no
exame?»
• Modelo. Procedimento que usa um caso particular como exemplar e modelo a imitar.
Exemplo: «Nelson Mandela, que até esteve na prisão durante largos anos, nunca desistiu de lutar e conseguiu grandes feitos quanto
à abolição da discriminação racial».
• Analogia. Procedimento que usa relações colocadas em justaposição por uma interacção entre o tema e o foro com vista a produzir um novo entendimento ou um efeito
de valorização ou desvalorização. Exemplo: «As consequência desta política são mais promissoras para o desenvolvimento social que a invenção da roda».
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© Rui GrÁcio 2011
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