ANALOGIA
Do ponto de vista argumentativo, uma analogia consiste em partir de uma
relação geralmente conhecida e admitida e assimilá-la a outra que pode
ser mais distante ou problemática. A analogia funciona, assim,
aproximando o que é mais familiar ao que é mais estranho para,
desse modo, permitir aplicar (por transferência) ao que nos é menos
familiar, os critérios de clareza que temos relativamente ao que nos é
mais familiar.

Por exemplo, se uma farmacêutica pretende introduzir um novo
medicamento, ela pode recorrer à analogia para o promover, dizendo que
«do mesmo modo que as novas tecnologias foram estranhas antes de
serem banais, também este novo medicamento será em breve de
consumo generalizado».

A analogia, que estabelece uma conexão entre o particular e o
particular
, produz assim uma justaposição de relações cuja força
argumentativa reside na capacidade encontrar um
análogo que surja
como evidente e inquestionado, de tal modo que a sua dimensão óbvia
passe para a relação com a qual é comparado.

Segundo Perelman, a analogia não estabelece uma relação de igualdade
simétrica: «o interesse da analogia consiste na aproximação de dois
domínios heterogéneos, cujo primeiro par, a que nós chamamos
tema, se
desejaria esclarecer, precisar ou avaliar graças ao segundo, qualificado de
foro da analogia. Aliás, essa é a razão pela qual se afirma que o tema não
é igual ao foro, mas que é como o foro: a razão de similitude tende para a
igualdade, se se conseguem assimilar inteiramente as duas relações, mas,
se se chega a estabelecer a mesma relação entre os termos do tema e do
foro a analogia desapareceu, porque tema e foro se tornam homogéneos»
(Perelman, 1987: 207).

Uma das formas mais vulgares de refutar uma analogia é dizer que não
se podem comparar coisas que não são comparáveis, ou seja, recusar a
aproximação entre o tema e o foro da analogia proposta. Sendo a
argumentação a partir da analogia fundada na similitude de duas relações,
ela torna-se tanto mais forte quanto as características relevantes do que é
comparado sejam realmente familiares e óbvias. Pode também aceitar-se
uma analogia operando uma inversão da finalidade para a qual ela é
proposta, colocando-a assim ao serviço do contradiscurso. A analogia tem
também relação com a
metáfora — considerada por Perelman como uma
«analogia condensada» —, funcionando as metáforas como verdadeiros
hologramas do discurso.

No campo jurídico, por exemplo, o recurso ao precedente implica uma
forma de argumentação analógica que convoca o modo como se decidiu
num determinado caso passado para que ele seja tomado em consideração
no modo de decidir no caso presente. Em termos de racionalidade, as
argumentações pela analogia remetem para aquilo a que Perelman (1972:
7) chamou a
regra de justiça, a qual aponta para uma equidade no
tratamento de situações consideradas como essencialmente semelhantes e
é vista como «
a regra mestra da razão prática», remetendo para uma
racionalidade assente em processos de comparação.


Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
© Rui GrÁcio 2015