ARGUMENTAÇÃO E REGRESSÃO AO INFINITO
A atividade de argumentar tem um fundamento filosófico. Porquê? Em
primeiro lugar porque é regida por uma questão cujas respostas enquanto
conhecimento podem ser sempre postas em dúvida. Como escreve
Juranville (1984: 56), «a questão como filosófica, supõe uma colocação
em dúvida da resposta enquanto saber». Em segundo lugar, como nota
Aristóteles, porque no que diz respeito aos princípios de cada ciência «é
impossível sujeitá-los a discussão a partir dos mesmos princípios da
ciência particular em causa, posto que os princípios são os elementos
anteriores a tudo o mais; estes devem discutir-se à luz e em virtude das
opiniões prováveis relativas a cada um deles, e esta é a tarefa própria, ou
mais apropriada, à dialética, porque em virtude da sua natureza
indagatriz, ela nos abre o caminho aos princípios de todo o método»

(Tópicos, 100b-102a). Esta passagem traz uma solução ao chamado
trilema de Münchhausen segundo o qual toda a tentativa de
fundamentação última, em termos teóricos, cai numa das seguintes
aporias: a) regressão ao infinito; b) circularidade viciosa; c) escolha
arbitrária por um ponto que é colocado fora de questão (axioma). Dizemos
«solução» pois Aristóteles fala de discussão a partir de opiniões prováveis
que remetem para a aceitação, em termos práticos, de opções e de
deliberações. Em termos argumentativos não regredimos ao infinito
porque estamos sempre
in media res, não somos intemporais e, pelo
contrário, pesam sobre nós os constrangimentos da ação e as finalidades
práticas que urgem as decisões. Não é circularidade viciosa porque as
opções são o possível provisório e não o necessário definitivo. Por outro
lado, força dos argumentos tem o seu tempo de validade, força que não é
contudo arbitrária porque se alia ao preferível. A argumentação é
necessária para viver, mas não consiste em formulações imutáveis ou
corresponde à afirmação de um conhecimento eterno. Em suma, liga-se a
procedimentos de questionamento (e nisso tem afinidades com a filosofia),
mas nela o questionamento não é motivado teoricamente (não visa o
estabelecimento de conhecimento em termos de abstratos), estando
sempre ligado a finalidades práticas (nomeadamente à ponderação de
situações onde é incontornável decidir). Neste sentido ela afasta-se da
filosofia como busca de fundamentos últimos, centrando-se antes em
fundamentos suficientes para motivarem uma tomada de posição.
Trata-se, pois, de uma forma de pensar que tem em consideração o seu
enraizamento histórico e situacional.

Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
© Rui GrÁcio 2015