AUDITÓRIO
No âmbito da arte oratória, o termo «auditório» designa genericamente
aqueles a quem é dirigido o discurso do orador. A relação orador-
auditório reflete o quadro situado da produção do discurso do orador e
evidencia o princípio da
adaptação ao auditório (com o que isso implica
de processos de identificação que fomentam a comunhão de desejos e
motivos) como um componente retórico fundamental desse discurso.

Na retórica antiga, o auditório implica uma dimensão presencial de um
grupo de pessoas com o qual se estabelece uma comunicação assimétrica:
ao orador compete a iniciativa discursiva e ao auditório manifestações de
agrado (aplausos, vivas, etc.) ou de desagrado (assobios, apupos, etc.),
que permitem aferir a eficácia persuasiva do discurso. Neste sentido o
auditório é diferente da atual noção de «público». Com a mediatização da
retórica, não só o público não precisa de estar fisicamente presente como
a comunicação,
acentuada na sua unilateralidade, se processa por
meios audiovisuais diversos solidários da transformação da receção num
momento de espetáculo, conduzindo à espetacularização da comunicação.

Segundo Perelman, é possível diferenciar quatro tipos de auditório: o
auditório universal (cujo apelo é correlativo do uso de expressões como «a
ninguém passará pela cabeça», «todos concordarão», «estamos todos
conscientes de que»), e três tipos de auditórios particulares: o auditório
composto por um grupo de pessoas, o auditório composto por um único
interlocutor e o auditório enquanto encenação dual de si mesmo (ou seja,
quando se estabelece um diálogo interior que pesa posições distintas).
Neste último caso Perelman fala em deliberação íntima, devendo notar-se
que a sua classificação como auditório é estabelecida por analogia: «o
acordo consigo mesmo não é senão um caso particular do acordo com os
outros. Assim, do nosso ponto de vista, é a análise da argumentação
dirigida a alguém que nos levará a compreender melhor a deliberação
consigo mesmo, e não o inverso» (Perelman & Olbrechts-Tyteca, 1998:
54).

A conceptualização da argumentação em termos de orador-auditórico
corresponde a uma visão retórica da argumentação, ou seja, que aceita a
assimetria interlocutiva e
coloca a tónica na adesão e na persuasão do
auditório pelo orador, conferindo unilateralmente a este último a iniciativa
discursiva. Numa conceção interacionista e dialogal, que privilegia a
oposição entre discursos e a existência de turnos de palavra por parte dos
participantes e, por conseguinte, uma relação bilateral quanto à iniciativa
discursiva, a argumentação será vista a partir da relação
argumentador-
argumentador
e a prevalência dos aspectos da persuasão alia-se à
progressão da interação para além do díptico argumentativo, o que supõe
coordenação e interdependência entre o discurso dos participantes, a
retoma do discurso de um pelo discurso do outro, sendo que o auditório
pode surgir como uma instância de decisão (como é o caso de um júri
num tribunal que, não participando na interação argumentativa, detém o
poder de decidir a favor de uma das partes).

Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
© Rui GrÁcio 2015