CÂNONE RETÓRICO
Do ponto de vista da substância do discurso, a primeira e fundamental
questão é a seguinte: o que é importante convocar para abordar um
assunto de modo a exprimir uma perspetiva e um discurso consistentes?

Na retórica clássica, a este momento de selecionar e encontrar os
aspectos relevantes para falar do assunto foi dado o nome de
invenção,
no sentido de descoberta, e constituía a primeira e fundamental etapa na
produção do discurso. No entanto, ela não deixava de estar associada a
outros momentos. De facto, não basta encontrar aquilo que se considera
relevante para um determinado assunto. É também preciso saber levá-lo à
comunicação. Assim, por exemplo, a forma como os argumentos serão
sequenciados no discurso e a ordem pelo qual serão organizados é
importante a um duplo título: ao nível da clareza com que são
transmitidos e ao nível do impacto que provocarão.

Deste modo, a disposição dos argumentos no discurso pode ter relação
direta com os seus efeitos persuasivos junto de um auditório. Uma
organização mal estruturada e confusa pode levar a rejeitar a
argumentação apresentada e a descredibilizar o comunicador. Pelo
contrário, um discurso fortemente organizado, com passos bem
encadeados, que fornece de uma forma explícita os seus pontos de
ancoragem e confere uma necessidade quase matemática às suas
conclusões tem muito mais força e probabilidades de se impor
(nomeadamente a auditórios do foro científico). A essa forma de
argumentar que tira a sua força da similitude com o pensamento
matemático — utilizado até em tratados filosóficos, como a Ética
demonstrada à maneira dos geómetras, de Espinosa — chamou Perelman
«argumentos quase-lógicos» (Perelman e Olbrechts-Tyteca, 1988: 259 e
ss).

Mas, como de comunicação se trata, e de comunicação através do
discurso, a forma como se usa a linguagem não é também de importância
menor. Por isso, a
elocução, ou forma de dizer, é também de uma
importância retórica inegável. A eloquência é um dos aspectos essenciais
do comunicador e nela se articulam o
ethos, o pathos e o logos. Por um
lado, falar com clareza e de uma forma impressiva favorece a imagem que
se faz do orador. Por outro, a utilização adequada de figuras de estilo, de
comparações, de exemplos, de repetições e por aí em diante, cativa o
auditório e tende a envolvê-lo no discurso. Finalmente, a eloquência faz
com que as ideias que se articulam no discurso — e que eventualmente
até podem ser boas — pareçam, de facto, boas aos olhos do auditório. A
eloquência corresponde à consciência de que uma argumentação, do ponto
de vista comunicacional, está ligada à teatralização, no sentido em que o
discurso se torna mais compacto e eficaz quando é capaz de atingir o
auditório com palavras que falam como imagens. No entanto, e apesar das
situações nunca poderem ser antecipadas totalmente, nada como, quando
se tem essa possibilidade, de fugir ao risco do improviso ou, pelo menos,
de para ele se preparar. E, do mesmo modo que um ator de teatro tem de
decorar o seu papel, também um comunicador pode procurar
memorizar
o seu discurso. Por fim, e tendo em conta todos estes elementos, há que
os levar à prática: é o momento da
ação. Digamos que este momento
corresponde à entrega da mensagem e, mais especificamente, à
performance que lhe estará associada no sentido de a dotar de influência.
Uma boa performance é aquela em que o que é dito se articula, de uma
forma compacta, com a teatralidade do dizer.

São, com efeito, estes cinco aspectos que constituem o cânone da
retórica
clássica, na qual é visada a produção de um discurso monológico
planificado: a
inventio, a dispositio, a elocutio, a memoria e a actio.
Elas correspondem às seguintes questões:

• O que dizer? A que considerações vamos recorrer para elaborar o
discurso?
• Como organizar o que se quer dizer? Como estruturar e ordenar as
considerações selecionadas?
• Como o exprimir? Que tipo de linguagem utilizaremos, que recursos
linguísticos tornarão mais eloquente o discurso, que estilo é mais
adequado?
• Como interiorizar o esquema do discurso? Que estratégias posso usar
para não perder o fio condutor do discurso e não me esquecer de referir
os aspectos selecionados? Como atuar na memória dos outros?
• Como conduzir a performance discursiva? Como colocar a voz, como
controlar a gestualidade, como cuidar da postura durante o discurso?


Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
© Rui GrÁcio 2015