DIALÉCTICA FORMAL
A ideia de dialética formal foi proposta por Hamblin como uma forma de
pensar o que se passa na interação argumentativa. Se pensarmos que
uma argumentação é algo que ocorre entre pessoas (pelo menos duas) e
que é composta por turnos de palavra, ela pode sê-lo em termos dialéticos
e através dos movimentos argumentativos da lógica que cada participante
traz à argumentação. Para isso pode pensar-se a argumentação a partir de
um modelo ideal assente nas ideias de sistema como jogo, de
compromisso (ou obrigação) e de consistência. É preciso, explica Hamblin,
«incluir as características do contexto dialético no interior do qual os
argumentos são avançados» (1970: 254).

Para se assinalar uma falta argumentativa «precisamos de ver o nosso
raciocínio no tipo de contexto no interior do qual, e apenas aí, essas faltas
são possíveis» (1970: 253). A dimensão formal deste sistema dialético é
dado através da ideia de que «não nos preocuparemos em considerar
nenhum contacto do diálogo com o mundo empírico fora da situação de
discussão» (1970: 253). E o que caracteriza formalmente a situação de
discussão? É a existência de armazéns de compromissos que define o
papel dos participantes e a consistência para com os seus compromissos.
Com efeito, é através destas noções que o sistema dialético se assemelha
a um jogo. Escreve Hamblin (1970: 257): «um interlocutor que é obrigado
a manter a consistência precisa de armazenar as afirmações que
representam os seus compromissos prévios, sendo requerido que cada
nova afirmação possa ser adicionada sem inconsistência ao armazém. Este
armazém representa uma espécie de
persona de convicções: esta não
precisa de corresponder às suas convicções reais, mas operará,
aproximadamente, como se correspondesse. Veremos que precisamos
frequentemente de fazer referência à existência, ou à possibilidade, de
armazéns deste tipo. Chamar-lhe-emos, pois, armazéns de compromissos:
eles guardam a conta corrente dos compromissos da pessoa».

Eis, finalmente, como Hamblin caracteriza um sistema dialético
considerado não descritiva, mas formalmente. Ele «consiste em
estabelecer sistemas simples de regras precisas, mas não necessariamente
realistas, e em traçar as propriedades dos diálogos que podem ser jogados
de acordo com eles» (1970: 256). Um jogo dialético é simultaneamente
um processo aberto (no qual os participantes podem trazer novos
compromissos para a sua conta corrente) mas nem por isso deixa de ser
(auto)regulado pelas próprias observações avançadas pelos participantes
quanto às regras sobre as quais supostamente ambos se entendem: «o
ponto de ordem, ou locução procedimental, é tanto uma parte da
linguagem corrente como as regras formais de reuniões ou comités. ‘O
que vamos discutir?’, ‘Isso não decorre de’, ‘De momento, deixemos isso
de lado’, ‘Continua!’, ‘Não percebo’, ‘Isso é irrelevante’, ‘Espera, estás a ir
muito depressa para mim’, ‘Não me cabe a mim dizer’ — estas e outras
locuções familiares contribuem não para o assunto ou tópico do diálogo,
mas para a sua forma» (Hamblin, 1970: 283).


Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
© Rui GrÁcio 2015