ENUNCIADO
Se, como nota Grize (1997), «numa proposição a noção de sujeito
enunciador está ausente», o mesmo não acontece num enunciado. A
enunciação implica a mobilização da língua por um locutor que a
semantiza no discurso. Esta mobilização, que implica
processos
seletivos
, comporta aspectos dialógicos na medida em que não apenas
deixa marcas linguísticas posicionais do locutor como implanta o outro na
referência do discurso (relação eu-tu).

Considerados desta maneira, os enunciados possuem como característica
da sua significação o facto de
orientarem ou esquematizarem uma
forma de ver a realidade.

Do ponto de vista da argumentação a noção de enunciado é importante
não só porque se pode dizer que um enunciado é solidário de um
ponto
de vista
como orienta para a sequência do discurso em termos de
sentido.

As teorias da argumentação centradas na língua e na noção de enunciado
repousam, por conseguinte, na «intuição (...) de que assim que um
indivíduo produz um enunciado é desde logo possível, exclusivamente
sobre essa base, prever aquilo que ele irá dizer em seguida. O estudo da
argumentação é o estudo das capacidades projetivas dos enunciados, da
expectativa criada pela enunciação» (Plantin, 2005: 25).

A forma como os enunciados são semantizados através do uso de
conectores que os encadeiam (
mas, todavia, no entanto, etc.) adquire
assim uma
valência argumentativa, o mesmo acontecendo ao nível de
um único enunciado, em que a seleção de termos na sua associação com
lugares comuns (topoi) são formas de auto-argumentação, dotando as
palavras de um
efeito de holograma: a seleção dos próprios termos
(dizer com que palavras e sem que palavras?) é assim indissociável da
argumentatividade entendida como forma de orientação do discurso. Pode
assim dizer-se que falar é construir e tratar de impor aos outros uma
espécie de apreensão argumentativa da realidade (Ducrot, 1988: 14).



Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
© Rui GrÁcio 2015