O PROVÁVEL
No interior do campo argumentativo o provável não se refere a qualquer
tipo de expectativa baseada num cálculo de probabilidades quanto a um
resultado, mas é uma noção que alia o
possível e o preferível no que diz
respeito a um modo de ver ou a caminhos de ação. Neste sentido, ele tem
uma
natureza dilemática.

O provável, não em sentido estatístico, mas no sentido ensaístico — de
tentativa não suscetível de certificação, que resiste aos estreitamentos
focais da sua eventual formulação em termos rigorosos e unívocos, mas
que é todavia capaz de se revelar como imageticamente atrativa,
heuristicamente interessante e situacionalmente apropriada — engloba o
risco da indeterminação sem contudo deixar de funcionar como algo de
útil e suscetível de condicionar opções pela pesagem de prós e de contras.

O provável não é um parente pobre da certeza, mas a melhor caução do
pensamento prático, limitado situacionalmente e instado pela premência
do tempo útil. É neste sentido que o provável está associado ao verosímil,
ou seja, àquilo que não podendo ser declarado como verdadeiro ou falso e
escapando às certezas do cálculo funciona, para efeitos práticos, como
uma assunção a presumir.

Escreve Angenot   (2008: 68) que «apesar das pretensões filosóficas
quanto à procura incessante e à descoberta de verdades absolutas sobre
as coisas humanas, na vida, argumentamos pelo dóxico, pelo provável,
associamo-lo ao
pathos e acrescentamos-lhe figuras ‘oratórias’, porque
não temos escolha.
Porque ou é assim ou então seria preciso renunciar
a deliberar e a decidir. O provável é inseparável de considerações práticas:
nós
devemos orientar-nos e agir neste mundo, torná-lo inteligível para
nós e não demasiado desconcertante no curso da ação, não nos podemos
dar ao luxo de parar a todo o momento para fundar logicamente todo o
caminho do nosso pensamento».

Poderíamos assim associar o provável ao princípio da razão insuficiente 
no que diz respeito à premência da ação: primeiro continuamos, depois
começamos. Como também nota Angenot (2008: 69) «o provável é, pois,
uma zona de conhecimentos no qual, no melhor dos casos, sabemos
coisas, mas vaga e imprecisamente». Neste sentido o provável pode ser
ligado à noção de «assunto» como algo que é constituído por um conjunto
de referências que ocupam um lugar intermédio, mas matizado por
situações práticas, entre as ideias e os raciocínios.


Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
© Rui GrÁcio 2015