RECEPÇÃO, ACEITAÇÃO E ADESÃO
Segundo Grize podemos distinguir, na comunicação discursiva, entre
receção, aceitação e adesão, que correspondem, respetivamente, à
compreensão (ser capaz de ouvir/reconstruir o discurso, o que significa
evitar mal-entendidos e focalizar, pondo em comum e tornando
interpretável, aquilo de que se trata), ao assentimento (reconhecer o
discurso como coerente e consistente, ou seja, como convincente) e,
finalmente, à persuasão (ou seja, a apropriação desse discurso como algo
que é subscrito). É neste último sentido que se pode dizer que persuasão
não implica apenas «provar algo» mas «provar a alguém» (Grize, 1996:
10), sendo que «uma argumentação não persuade por ela mesma, mas
conduz o destinatário a persuadir-se a si mesmo» (Grize, 2004: 43).
Segundo esta última distinção, «provar algo» é da ordem do impessoal e
«provar algo a alguém» é da ordem do pessoal. Podemos assim dizer que
o convencimento significa que reconhecemos a consistência de um
modelo. Por exemplo, podemos dizer que quer a geometria euclideana
(plana) quer a geometria rimeniana (curva) são modelos convincentes.
Mas podemos, para fins de aplicação a um certo fim, subscrever um e não
o outro. Ou seja, a adesão convoca um ato de filiação ou de subscrição
que deriva de um posicionamento pessoal relativamente aquilo que nos é
proposto. É essencialmente neste último sentido que se pode falar em
argumentação «mas pode ser também possível conceber a argumentação
de um ponto de vista mais lato e de a entender como um processo que
visa intervir sobre a opinião, a atitude e, mesmo, o comportamento de
alguém. Deve contudo insistir-se que os meios são os do discurso (...)»
(Grize, 1997: 40). Com base nestas ideias é possível dizer que sem
competências comunicativas que permitam «pôr em comum» e sem
competências ao nível da consistência discursiva dificilmente se acede ao
nível da argumentação que, pressupondo os dois planos referidos, vai para
além deles, na medida em que representa uma tomada de posição.
Quando estamos perante um fenómeno de adesão, dir-se-á que
argumentação foi persuasiva na medida em que levou o interlocutor a
filiar-se na esquematização que lhe foi proposta. Quando o fenómeno da
adesão não se verifica, pode originar-se um contradiscurso. No entanto,
insista-se, o nível da argumentação intervém quando não se coloca o
problema do mal-entendido ou não está em causa a consistência do que é
proposto. Dito de outra maneira, se a argumentatividade do discurso é o
que o permite tornar interpretável e aceitável em termos de compreensão,
já a questão da adesão lida com o que foi compreendido em termos de
posição que pode ser subscrita ou não. De referir, finalmente, que a
linearidade destas distinções encontra dificuldades de um ponto de vista
interacional, onde a compreensão vai sendo co-construída de uma forma
desde logo orientada pela modelação dos termos em que são colocadas as
questões.


Rui Alexandre Grácio
 
VocAbulário
 
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