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Escrito em 3 de Julho de 2010
Sobre actores, papéis e teatralidade
«Todos se riram com a subtileza de Ana e Beatriz juntou:
– Eu sempre digo que um professor é uma espécie de actor. E que a efectiva transferência de conhecimento reside no sucesso da performance.
– Todos somos actores. Eu sei que é um lugar-comum – acrescentou Helder –, mas também é uma grande e fatal verdade. Todos representamos um papel qualquer. O problema é quando tomamos parte numa encenação que nos é imposta ou que de alguma forma não nos agrada. Quando nos sentimos condicionados a fazer parte de uma representação que encerra qualquer coisa que consideramos aviltante. Quando somos
persuadidos que ter sucesso na vida é subir a escada do proveito material e descer os degraus da boa consciência. E quando temos que aceitar viver segundo cânones impostos por mecanismos condenáveis à luz de uma teoria social equânime e não comprometida. Vamos de cena em cena, de palco em palco, exibindo as nossas máscaras e fatiotas que nos identificam e harmonizam com a peça, caso contrário aventuramo-nos a ser postos fora da cena, talvez até do teatro. Acabamos persuadidos que o nosso papel é crucial para a representação, seja ela qual for, tenha o efeito que tiver. Somos os grandes protagonistas!
Basta que alinhemos na fantástica persuasão e imitemos as «nove de cada dez estrelas»… – Helder, talvez com receio dos seus desmandos oratórios, concluiu a sua difusa e inspirada intervenção, fingindo, em consonância com as suas palavras, uma teatralidade um tanto burlesca, situação que levou a que todos, entrando no seu jogo, simulassem um aplauso quando ele
rematou a explicação das suas divergências.»
Manuel Ralha, Jogo tardio, Grácio Editor, Coimbra, 2010, p. 68
Escrito em 20 de Junho de 2010
Postulados ingénuos e acríticos sobre a argumentação
«Podemos assinalar no ensino da retórica de outrora, recente e mesmo actual, o eterno retorno a uma série de postulados ingénuos provenientes do senso comum a-crítico e que não são questionados pelos doutos.
Que os raciocínios são manifestações de uma faculdade humana chamada razão e que as argumentações são encarnação, levadas à linguagem, colocadas no discurso, do raciocínio. Que entre razão postulada e raciocínio não existe nenhuma opacidade problemática, mas uma relação entre matriz e seus produtos.
Que os raciocínios retóricos/dialécticos se distinguem pelo seu ‘rigor’ menor relativamente aos raciocínios apodícticos, mas que este ‘raciocínio vulgar’ se aplica, pelo menos, indistintamente a tudo: à politica, à cozinha, à vida amorosa, ao negocio, aos desportos...
Que nestes sectores, um argumento (ao contrário da prova demonstrativa) não tem necessidade de ser conclusiva para ser boa: basta que ela reforce a tese e resista às objecções. Que uma ciência (por exemplo, a que se designa como Lógica informal) pode elaborar a teoria deste modo geral e corrente de raciocinar
e fixar as suas normas à luz da razão.
Que os homens discutem para se persuadir reciprocamente e para se esclarecerem
sobre o que se é preciso pensar pela confrontação de raciocínios cujo valor podemos pesar pela bitola de critérios constantes. Que eles conseguem persuadir-se normal e regularmente. Por
conseguinte, que a finalidade do discurso, do debate argumentado é a persuasão obtida pela força dos melhores argumentos. Que as ideias têm necessidade de discussão para serem decantadas, testadas e eventualmente se imporem, que o meio retórico é o livre desenvolvimento de argumentos opostos e a finalidade a ‘vitória’ de uma das teses em presença — a melhor, se tudo for bem desenvolvido.
Que o conhecimento factual, os juízos de valor e os juízos de escolha e da acção formam um continuum, conhecer-avaliar-agir, e que a coerência deste continuum é índice de validade: quem tiver correctamente enumerado os dados do problema,
classificado, distinguido, e depois colocado os sinais + e – sobre as coisas, pode passar à etapa proairética, que lhe indicará a via a escolhar e como agir.
Que a razão é una e que todos os homens, iluminados pela razão, com algum esforço de inteligência e com boa-fé, raciocinarão sobre os mesmo dados de uma forma semelhante. Que a razão una fornecerá uma série finita de mecanismos correctos de raciocínio, de passagem de uma proposição à outra e que, tendo como premissas a doxa, regida pelo senso comum, ela procura um vasto repertório de raciocínios correctos, aceitáveis (que, é verdade, não poderão ser mais seguros do que as crenças sociais sobre as quais se fundam, raciocínios que são prováveis na medida em que não há desperdício de credibilidade entre as premissas e as conclusões).
Que existem, fora destes mecanismos racionais, e os filósofos desde Platão e Aristóteles inventariaram-nos e bem os denunciaram, raciocínios falaciosos, enunciados que tem a aparência de raciocínios mas que não o são verdadeiramente e aos quais chamamos sofismas. Que estes raciocínio incorrectos constituem excepções ao exercício correcto e normal da razão, erros e imposturas. Que o uso da mentira, da manha, da calúnia, de equívocos de vocabulário e o dos sofismas (como falsos raciocínios deliberados, susceptível de iludirem) é condenável porque a finalidade imanente de chegar pela razão discursiva a um conhecimento melhor das coisas é assim traída. Que a eliminação dos paralogismos, dos raciocínios viciosos, que a vitória dos raciocínios bons e fortes sobre os raciocínio duvidosos e fracos é a finalidade a atingir.
Que saber as coisas o mais precisa e claramente possível contribui para a felicidade e/ou para a nossa sabedoria.
Tudo isto é quer duvidoso e discutível, quer falso — ou, melhor, demasiado vago, nem verdadeiro nem falso».
Angenot (2008: 87-88).
Escrito em 20 de Junho de 2010
Primeiro continua-se, depois começa-se:
O provável como recurso incontornável
Escreve Angenot que (2008: 68) «apesar das pretensões filosóficas quando à procura incessante e à descoberta de verdades absolutas sobre as coisas humanas, na vida, argumentamos
pelo dóxico, pelo provável, associamo-lo ao pathos e acrescentamos-lhe figuras ‘oratórias’, porque não temos escolha. Porque ou é assim ou então seria preciso renunciar a deliberar e a decidir. O provável é inseparável de considerações práticas: nós
devemos orientar-nos e agir neste mundo, torná-lo inteligível para nós e não demasiado desconcertante no curso da acção, não nos podemos dar ao luxo de parar a todo o momento para fundar logicamente todo
o caminho do nosso pensamento». Poderíamos assim associar o provável ao princípio da razão insuficiente no que diz respeito à premência da acção: primeiro continuamos, depois começamos.
Escrito em 18 de Junho de 2010
Sobre as (demasiadas) regras na argumentação
A interacção argumentativa «mais do que ser governada por regras fixas, representa o esforço de, na disputa, cada um reforçar as suas próprias regras. A legitimidade ou relevância de um dado ponto estabelecido no curso da argumentação depende das respectivas visões dos que estão envolvidos na argumentação e a energia de cada argumentador está essencialmente concentrada na tentativa de estabelecer as suas próprias visões» (Johnstone Jr., 1959: 12). Estas ideias fazem eco da advertência de Natanson quando afirma que «o mais frequentemente é que o desacordo não seja uma disputa em torno de certas proposições mas uma disparidade estilística. O desacordo é um modo de descobrir o estilo de espírito do interlocutor, de reconhecer a geografia do seu mundo» (1965: 18-19). Será então que não há regras para avaliar as argumentações? Como sugere Plantin (2009b) «a prática da avaliação dos argumentos é guiada por um princípio simples: aquele que não admite um discurso é o primeiro, porventura o melhor crítico e, antes de mais, ele fala; é pois preciso considerar a sua palavra. Esta última afirmação é um princípio normativo que diz respeito, não à actividade argumentativa, mas ao método em teoria de argumentação. A tarefa desta teoria é a de inteirar-se o melhor possível desta actividade crítica e, não, substituí-la. A conclusão inspirar-se-á em Guzot: laissez faire, laissez aller — e deixem dizer! Não existe um super-avaliador capaz de parar o processo crítico por uma avaliação terminal que a todos faria calar. E quanto mais avaliações houver, mais argumentações apaixonantes haverá para descrever».
Escrito em 18 de Junho de 2010
Sobre jogos e ser-se sério
«Filha: Paizinho, estas conversas são a sério?
Pai: Claro que sim.
F: Não são uma espécie de jogo que jogas comigo?
P: Deus me livre... mas são uma espécie de jogo que jogamos juntos.
F: Então não são a sério!
•••
P: Ora diz-me lá o que é que entendes pelas palavras «sério» e «jogo».
F: Bom... se tu estiveres... não sei.
P: Se eu estiver o quê?
F: Quer dizer... as conversas são sérias para mim, mas se tu estiveres apenas a jogar um jogo...
P: Calma aí! Vejamos o que há de bom e o que há de mau quanto a «jogar» e jogos». Em primeiro lugar, não me importo — não muito — em ganhar ou perder. Quando as tuas questões apertam comigo, claro, eu tento pensar direito com mais força e dizer claramente o que penso. Mas não faço bluff e não preparo armadilhas. Não há a tentação de fazer batota.
F: Ora aí está. Não é a sério para ti. É um jogo. As pessoas que fazem batota não sabem como jogar. Tratam o jogo como se fosse a sério.
P: Mas é a sério.
F: Ai isso é que não é — para ti não é.
P: Porque nem sequer quero fazer batota?
F: Sim — parcialmente por isso.
P: Mas tu queres estar sempre a fazer batota e bluff?
F: Não — claro que não.
P: E então?
F: Oh — paizinho — nunca vais entender.
P: Se calhar não.
P: Olha, marquei agora uma espécie de ponto no debate forçando-te admitir que não queres fazer batota — e depois liguei a essa admissão à conclusão de que, por conseguinte, a conversa também não é «a sério» para ti. Será que isso é uma espécie de batota?
F: Sim — mais ou menos.
P: Concordo — acho que foi. Peço desculpa.
F: Estás a ver, paizinho — se eu tiver feito batota ou se quisesse fazê-la, isso significaria que eu não estava a ser séria relativamente às coisas sobre as quais falámos. Significaria que eu apenas estava a jogar um jogo contigo.
P: Sim, faz sentido.
•••
F: Mas não faz sentido. É um terrível lamaçal.
P: Sim — um lamaçal — mais ainda assim com uma espécie de sentido.
F: Como, paizinho?
•••
P: Espera um bocadinho. É difícil de dizer. Em primeiro lugar — penso que chegamos a algures com as nossas conversas. Gosto muito delas e penso
que tu também. Mas, para além disso, penso que chegámos a algumas ideias correctas e acho que os lamaçais ajudam. Quero dizer — se falarmos logicamente o tempo todo, nunca chegaríamos a lado nenhum. Papaguearíamos apenas velhos clichés que toda a gente repetiu durante centenas de anos.
F: O que é um cliché, paizinho?
P: Um cliché? É uma palavra francesa, e penso que era originalmente um termo da impressa.
Quando imprimiam uma frase tinham de pegar nas diferentes letras e colocá-las em ordem uma por uma numa espécie de caixa sulcada para soletrarem a frase. Mas para palavras e frases que as
pessoas utilizavam muito, o impressor guardou as pequenas caixas de letras já feitas. E essas frases já-feitas são chamadas clichés.
F: Mas agora esqueci-me do que estavas a dizer sobre os clichés, paizinho.
P: Sim — era sobre os lamaçais em que caímos nestas conversas e sobre como cair nos lamaçais tem algum sentido. Se não caíssemos nos lamaçais, as nossas conversas eram como jogar rummy sem antes ter baralhado as
cartas.
F: Sim, paizinho — e quanto àquelas coisas — as caixas de letras já-feitas?
P: Os clichés? Sim — é a mesma coisa. Temos sempre muitas frases e ideias-feitas, e o impressor tem
caixas já-feitas de letras, todas ordenadas em frases. Mas se o impressor quisesse
imprimir algo de novo — digamos, algo numa nova linguagem, teria de desfazer todas aquelas velhas
letras ordenadas. Do mesmo modo, com vista a termos novos pensamentos ou a
dizer coisas novas, temos de desfazer todas as nossas ideias-feitas e baralhar
as peças.
F: Mas, paizinho, será que o impressor não iria misturar todas as letras? Misturaria? Despejava-as a todas num saco.
Punha-as uma por uma nos seus lugares — todos os a’s numa caixa e todos os b’s noutra, e todas as aspas noutra, e assim por diante.
P: Sim — isso é verdade. De outra forma enlouqueceria quando quisesse encontrar um a.
•••
P: Em que é que estás a pensar?
F: Nada — é que há tantas questões.
P: Como por exemplo?
F: Bom, eu percebo o que queres dizer quanto ao cairmos em lamaçais. Que isso nos faz dizer novos tipos de coisas. Mas estou a pensar no
impressor. Ele tem de guardar todas as suas pequenas letras ordenadas mesmo
quando desfaz todas as frases já-feitas. E interrogo-me sobre os nossos lamaçais. Temos de guardar as pequenas peças do nosso pensamento nalguma espécie de ordem para evitar que enlouqueçamos?
P: Parece-me isso — sim — mas não sei que tipo de ordem. Isso seria uma questão tremendamente difícil de responder. Não me parece que hoje nos fosse possível chegar a uma resposta para essa questão.
•••
P: Disseste que há «tantas questões». Tens outra?
F: Sim¬ — sobre os jogos e ser-se sério. Foi daí que começámos e não sei como nem porquê isso nos levou a falar dos nossos lamaçais. A maneira como confundes tudo — é uma forma de fazer batota.
P: Não, absolutamente não.
•••
P: Levantaste duas questões. E realmente há muitas mais... Começámos com uma questão sobre estas conversas — são sérias? Ou são uma espécie de jogo? E tu ficaste ofendida por eu poder estar a jogar um jogo, enquanto
tu estavas a sério. A conversa parece ser pois um jogo se uma pessoa nela participar com um
conjunto de emoções ou ideias — mas não é um «jogo» se as suas ideias ou emoções são diferentes.
F: Sim, é como se as tuas ideias sobre a conversa sejam diferentes das minhas...
P: E estaria tudo bem se ambos tivéssemos a ideia do jogo?
F: Sim, claro.
P: Por conseguinte parece que me cabe a mim tornar claro o que quero dizer com a
ideia do jogo. Sei que sou sério — o que quer que isso queira dizer — sobre as coisas acerca das quais falamos. Falamos sobre ideias. E sei que jogo
com as ideias com vista a compreendê-las e a encaixá-las umas nas outras. É «jogar» no mesmo sentido em que uma criança «joga» com blocos. E uma criança com blocos para fazer construções é, na maior parte das vezes, muito séria com o seu «jogo».
F: Mas será que é um jogo, paizinho? Jogas contra mim?
P: Não. Penso nisso como estando tu e eu a jogar contra os blocos para fazer construções ¬— as ideias. Por vezes competindo um pouco — mas competindo para ver quem é que consegue pôr a ideia seguinte no lugar. E às vezes atacamos partes das construções do outro, ou então tento defender do teu criticismo as ideias que construí. Mas, no fim, estamos sempre a trabalhar conjuntamente para construir as ideias
de forma a que se aguentem.
•••
F: Paizinho, a nossas conversas têm regras? A diferença entre um jogo e estar apenas a jogar é que o jogo tem regras.
P: Sim. Deixa-me pensar sobre isso. Penso que temos uma espécie de regras... e acho que uma criança a jogar com os blocos tem regras. Os próprios blocos constituem uma espécie de regras. Desequilibrar-se-ão em certas posições e equilibrar-se-ão noutras posições. E seria uma espécie de batota se a criança utilizasse cola para sustentar os blocos numa posição em que doutro modo cairiam.
F: Mas que regras temos nós?
P: Bom, as ideias com as quais jogamos trazem-nos uma espécie de regras. Essas regras são acerca do modo como as ideias se aguentam uma às outras. E se elas foram erradamente ligadas todo o edifício cai.
F: Sem cola, paizinho?
P: Nada — sem cola. Unicamente lógica.
•••
F: Mas disseste que se falássemos sempre logicamente e não caíssemos em lamaçais nunca diríamos nada de novo. Apenas poderíamos dizer coisas já-feitas. O que é que lhes chamaste?
P: Clichés. Sim. Os clichés estão unidos com cola.
F: Mas disseste «lógica», paizinho.
P: Sim, eu sei. Estamos no lamaçal outra vez. Só que não vejo saída para este lamaçal em particular.
•••
F: Como é que caímos nele, paizinho?
P: Ora bem, vamos ver se conseguimos reconstituir os nossos passos. Estávamos a falar sobre as «regras» desta conversa. E eu disse que as ideias com que jogamos tem regras da lógica..
F: Paizinho, não seria bom termos mais algumas regras e obedecer-lhes mais cuidadosamente?
Assim poderíamos evitar cair nestes terríveis lamaçais.
P: Sim. Mas espera. Dizes que eu nos arrastei para estes lamaçais porque fiz batota quanto a regras que não temos. Ou então, coloca as coisas desta forma. Que seria possível ter regras que nos impediriam de cair nos lamaçais — desde que lhe obedecêssemos.
F: Sim, paizinho, é para isso que servem as regras de um jogo.
P: Pois, mas queres transformar estas conversas nesse tipo de jogo? Preferiria
jogar a canasta — que também é divertido.
F: Sim, é verdade. Podemos jogar canasta sempre que queremos. Mas neste momento prefiro
jogar este jogo. Só que não sei que tipo de jogo é este. Nem que tipo de regras tem.
P: E, no entanto, já estamos a jogar à um bocado.
F: Sim. E foi divertido.
P: Sim.
•••
P: Voltemos à questão que colocaste e sobre a qual eu disse que era muito difícil de responder hoje. Estávamos a falar do impressor a desfazer os seus clichés e tu disseste que ele ainda assim teria de manter alguma ordem nas suas letras
— para evitar que enlouquecesse. E depois perguntaste: «A que tipo de ordem temos de aderir para quando cairmos no lamaçal não enlouquecer?» Parece-me que as «regras» do jogo são apenas outro nome para esse tipo de ordem.
F: Sim, e fazer batota é o que nos leva a cair nos lamaçais.
P: Num certo sentido, sim. Está certo. Excepto que o objectivo do jogo é fazer-nos cair em lamaçais e sair pelo outro lado, e se não houvesse lamaçais e «jogo» seria como a canasta ou o xadrez — e isso é o que não queremos que seja.
F: És tu quem faz as regras, paizinho? Isso é justo?
P: Isso, filha, é um golpe baixo. E, provavelmente, também injusto. Mas vou aceitar isso como um valor nominal. Sim, sou eu quem faz as
regras — afinal, não quero que enlouqueçamos.
F: Está bem. Mas, paizinho, também mudas as regras? Às vezes?
P: Hmm... mais um golpe baixo. Sim filha. Mudo-as constantemente. Não todas, mas algumas.
F: Gostava que me dissesses quando as vais mudar!
P: Hmm — sim — uma vez mais. Quem me dera poder. Mas não é assim. Se fosse como o xadrez ou a canasta , podia dizer-te as regras e podíamos, se quiséssemos, parar de jogar e discutir as regras. E depois poderíamos começar um novo jogo com as novas regras. Mas que regras nos aguentariam entre os
dois jogos? Enquanto estivéssemos a discutir as regras?
F: Não percebo.
P: Sim. O objectivo destas conversas é descobrir as «regras». É como a vida — um jogo cujo propósito é descobrir as regras, as regras que estão sempre a mudar e sempre indescobríveis.
F: Mas eu não chamaria a isso um jogo, paizinho.
P: Talvez não. Eu chamar-lhe-ia um jogo ou, de qualquer modo, jogar. Mas não é seguramente como o xadrez e a canasta. É mais parecido com o que fazem os gatinhos e os cachorrinhos. Talvez. Não sei.
•••
F: Paizinho, a que jogam os gatinhos e os cachorrinhos?
P: Não sei — não sei.
BATESON, Gregory (1972), Steps to an Ecology of Mind, Chicago and London, The university Press, pp. 14-20.
Escrito em 17 de Junho de 2010
AS IMPERATIVAS E INDECISAS REGRAS DO DEBATE
«Segundo Marc Angenot podemos distinguir entre as regras do debate e as regras da
argumentação. Ambas constituem condições de possibilidade das argumentações. As regras do debate fixam as «condições processuais requeridas aos interlocutores para que aceitem debater, condições que são concebidas como indispensáveis, ou seja, fora das quais não pode haver senão frustração recíproco e falhanço da discussão» (Angenot: 2008, 133). Estas regras têm várias dimensões, indo da regulação dos turnos de palavra, a selecção do tema a debater e formas éticas de interagir. Podemos enumerar como regras do debate as seguintes (cf.
Angenot: 2008, 136 e ss): 1) Reconhecimento da igualdade dos participantes. 2)
Acordo sobre a «existência» do tema. 3) Uma diferença quanto às posições dos participantes. 4) A disposição para argumentar. 5) Disponibilidade para mudar de opinião. 6) Interdição de sair do argumentativo. 7) Privilegiar a exigência dos participantes. 8) Regras práticas que visam evitar a queda na esterilidade da regressão ao infinito, em querelas semânticas ou em obstáculos que impedem a fluência da comunicação e a expressão prática de posições. 9) Regras relativas à conclusão do debate (uma vez que há que não permanecer nele indefinidamente). No entanto, como observa também Angenot, nada nestas regras é simples: «como uma ilusão que as auréola, flutua sobre estas normas simultaneamente imperativas e indecisas, uma espécie de ideal idílico das relações humanas e das discussões: partilhar uma mesma boa vontade de saber, ter uma mesma temeridade para abraçar tudo o que se possa saber de uma questão, estar convencidos de um modo semelhante que a ignorância e as falta de curiosidade são coisas más, que o erro acabará por ceder perante a verdade, partilhar a mesma convicção de que o saber contribui para a nossa felicidade, mesmo que a Igreja tenha
advertido: ‘Quem argumenta o seu saber, argumenta o seu sofrimento» (Angenot, 2008: 146).
Escrito em 12 de Junho de 2010
Da comunicação àS obliquidades da argumentação
«Quando os ‘sujeitos falantes’ se envolvem numa comunicação, eles procuram atingir os seus objectivos, que é o de comunicar e, de um modo genérico, admitimos que a coisa funciona: são compreendidos, a sua mensagem é supostamente bem recebida pelo destinatário. Mas quando as pessoas, mais especificamente, se põem a argumentar, o que é uma subcategoria maior da comunicação, a transmissão da ‘mensagem’ nunca corre bem: descobrem rapidamente que a parte adversária não apenas não conclui da mesma forma que eles, permanecendo estranhamente inacessível às provas apresentadas, como também que ela raciocina pelo seu lado
obliquamente e não respeita certas regras fundamentais que tornam o debate possível».
ANGENOT, M. (2008), Dialogue de sourds. Traité de rhétorique antilogique, Mille eu une nuits, p. 8.
Escrito em 10 de Junho de 2010
O implícito:
a eficácia da palavra e a inocência do silêncio
«A língua deixa de ser apenas o lugar onde os indivíduos se encontram mas impõe a este encontro formas bem determinadas. Deixa de ser apenas uma condição da vida social e torna-se num modo de vida social. Ela perde a sua inocência. Deixar-se-á, portanto, de definir a língua à maneira de Saussure, como um código, isto é, como um instrumento de comunicação. Será antes considerada como um jogo ou, mais exactamente, como colocando as regras
de um jogo, e de um jogo que se confunde largamente com a existência quotidiana. (...). Ora, temos frequentemente a necessidade de,
simultaneamente, dizer certas coisas e de poder fazer como se não as tivéssemos dito, de as dizer, mas de tal forma que possamos recusar a
responsabilidade da sua enunciação. (...) Na medida em que, apesar de tudo, pode haver razões para falar destas coisas, torna-se necessário ter à sua disposição modos de expressão implícito, que permitem deixar entender sem arcar com a responsabilidade de ter dito.
Uma segunda origem possível da necessidade do implícito deve-se ao facto de uma afirmação explicitada se tornar, por isso mesmo, um tema de discussões possíveis. Tudo o que é dito pode ser contradito. De forma que não seria possível anunciar uma opinião ou um desejo sem as sujeitar ao mesmo tempo às objecções eventuais dos interlocutores. Como foi frequentemente sublinhado, a formulação de uma ideia é a primeira e decisiva etapa para a sua colocação em questão. É pois necessário, para toda a crença fundamental, trate-se de uma ideologia social ou de uma posição pessoal, encontrar, se ela se exprimir, um meio de expressão que não a desenrole, que não a torne num objecto assinalável e, por conseguinte, contestável. (...) O problema geral do implícito (...) é o de saber como é que se pode dizer algo sem contudo aceitar a responsabilidade de o ter dito, o
que significa beneficiar simultaneamente da eficácia da palavra e da inocência do silêncio».
Ducrot, O. (2003) [1991], Dire et ne pas dire, Paris, Hermann, pp- 4-12.
Escrito em 9 de Junho de 2010
Os expostos somos nós
Não será a capacidade de se fazer compreender e entender um considerável poder persuasivo? De um ponto de vista prático essa capacidade é frequentemente conotada com a competência argumentativa: saber falar, fazendo-se perceber. A argumentação é identificada com a retórica e surge intimamente associada à oratória, ao par orador-auditório e a uma concepção essencialmente unilateral da comunicação: ao orador compete a
iniciativa discursiva, ao auditório manifestações de agrado (aplausos, vivas, etc.) ou de desagrado (assobios, apupos, etc.)
que permitem aferir a eficácia persuasiva do discurso. No contexto da retórica mediatizada, que transforma o auditório num público, continua a pensar-se que será este quem aferirá a persuasividade do discurso. Dir-se-á, subvertendo-se totalmente a noção de crítica, que o público será a «instância crítica».
O pressuposto deste entendimento, que liga a argumentação a toda uma série de elementos que gravitam em torno da ideia de expressão — assimilada, no caso da retórica mediatizada, à ideia de espectáculo —, está essencialmente ligado às ideias de ethos e de pathos. Quem se expressa com clareza, fluência, rapidez e persistência transmite a imagem de uma pessoa atenta, interventiva e com opiniões próprias. Impõem-se como alguém que deve ser considerado e cuja credibilidade cria antecipadamente
expectativas em torno das suas intervenções.
É claro que a convicção que coloca na sua actuação discursiva, a capacidade deambulatória no sentido de considerar vários pontos de vista e várias possibilidades, alargando assim o espectro dos processos de identificação a auditórios heterogéneos, bem como a assertividade que é capaz de mostrar, geram empatia, e esta é um factor fundamental para se usufruir do privilégio da atenção dos outros, de se ser escutado e, com isso, da predisposição para se ser compreendido. Da compreensão à aceitação, principalmente quando o discurso parece dar voz aos que não tem essa capacidade expressiva, o passo é frequentemente invisível.
Mas esta ideia da retórica-como-persuasão, assente essencialmente na expressividade e no desempenho discursivo, não deve obnubilar a questão essencial que se coloca quando se trata de argumentar. Escreve a este propósito Jeanine Czubaroff que a questão essencial não é a de saber «se pretendemos influenciar ou persuadir alguém, mas se procedemos monológica ou dialogicamente». E explicita: «o problema da tradição da retórica-como-persuasão é, por conseguinte, a sua tendência para privilegiar modos de poder e de influência monológicos, unilaterais e o eclipse dos modos de poder e de influência dialógico-multilaterais. Aquilo que o diálogo tem para contrabalançar os abusos cometidos em nome da persuasão monológica é a multilateralidade, a disponibilidade e a responsabilidade, a vontade de
permanecer no seu próprio terreno e de conceder ao outro o mesmo direito».
No mesmo sentido vão as certeiras palavras de Makau e Marty quando escrevem que «em primeiro lugar, mesmo que os objectivos de quem advoga sejam alcançados, este padrão unilateral de sucesso não é fiável. Mede a eficácia quase inteiramente nos termos de quem advoga — carácter, intenções e desempenho — e, por conseguinte, privilegia a perspectiva do que advoga às custas dos outros. Em segundo lugar, este padrão unilateral reduz necessariamente as competências de recepção activa do auditório — escuta atenta, reflexão crítica e avaliação — a meros indicadores do sucesso do orador. Consequentemente, o retorno
substantivo e a consulta são desvalorizados, na medida em que apenas são considerados — se é que realmente o são — nos termos de quem advoga. Por fim, a advocacia adversarial viola o espírito dialógico inerente às comunidades deliberativas. Esta violação permite a quem advoga tratar os outros com pouco respeito. Um tal
comportamento, em si e por si mesmo, é um abuso de poder que põe em causa a integridade relacional e a confiança no comum».
Nos nossos dias parece normal e inevitável a nossa sujeição à tirania da persuasão. Achamos que as ideias devem ser expostas ao teste da crítica e que somos capazes de fazer a triagem. Mas uma perspectiva voluntarista e
individualista, que ignora historicidade do pensamento em situação e a complexidade social é a este respeito uma postura ingénua, uma espécie de onda de braços que não leva longe. Fazem de nós instâncias críticas, dando-nos até a palavra. Mas os expostos somos nós. Porque é diferente batermo-nos pelo modo de colocar as questões, seleccionando o que é relevante, e sermos convidados a saltar para a caixa das questões-já-feitas e pronunciarmo-nos servil, mas alegremente — afinal, jogar é divertido e exprimirmo-nos é terapêutico —, num jogo de linguagem cujas regras não nos compete interrogar. Será talvez por isso que Ducrot professa «uma desconfiança
radical relativamente ao discurso».
Compreendo, pois, a passagem de Gabriel Garcia Marquez em Cem anos de solidão: «um dia, o pai Nicanor convida-o para jogar damas. José Arcádio Buendia recusará, pois não via interesse numa competição entre dois adversários que concordam com as regras. O pai Nicanor, que nunca tinha visto o jogo de
damas desse ângulo, também nunca mais conseguiu jogar».
E recordo-me do «Rifão Quotidiano», de Mário-Henrique Leiria, imortalizado pelo dizer de Mário Viegas (http://www.youtube.com/watch?v=T6InhL4ttHo).
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
(Mário-Henrique Leiria, Novos Contos do Gin)
Escrito em 8 de Junho de 2010
E passou um ano. Lá fora parece que passaram muitos. Não sei que metamorfose me permite voltar à escrita neste lugar estranho de encenação comunicativa. Talvez a reconciliação com o silêncio.
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