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Apresentação de livros
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Rui Grácio
Cronicando as crónicas de Alcione araújo
(Apresentação na Casa da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, em 4 de Março de 2005)
O livro chegou-me pelas mãos da Cristina. E, precedido pelo pedido, trazia a incumbência de o apresentar numa sessão de lançamento em Coimbra. Do autor, eu nunca tinha ouvido falar. Mas como a ignorância só se revela vergonhosa quando deixamos de ser curiosos ou de nos desinteressarmos
por aprender e conhecer, confessada a minha escassa bagagem e duvidosa competência, lá parti para a empreitada.
Na segunda badana do livro lá estava uma fotografia do autor, sentado numa mesa de café, mão esquerda apoiando a cabeça e a direita segurando uma colher mergulhada numa chávena. Presume-se que estaria mexendo o café.
O semblante indicava-me um homem de meia idade, com alguns escassos cabelos
brancos e sorriso simpático, em postura descontraída. O olhar, por detrás das lentes dos óculos, deixou-me algumas dúvidas: pareceu-me conter aquela componente de resguardo de quem sente algum
desconforto perante a invasividade da câmara em momento fotográfico. Globalmente, a fotografia estava bem e mediava o meu primeiro contacto
visual com Alcione Araújo.
Por cima da fotografia, um texto anunciava-o como ex-professor universitário, pós-graduado em Filosofia e actualmente escritor a tempo inteiro. A minha inveja
manifestou-se e fez-me dirigir o olhar de novo para a fotografia. Também de filosofia, ham? E só te dedicas à escrita! Ainda há gente com sorte… — cogitou a minha curiosidade, agora mais estimulada perante a nova informação. Foi já de uma forma acelerada que concluí a leitura do texto da badana, ávido por começar a leitura do livro. Sem deixar de reter a admirável versatilidade da produção do autor, li, sem lhes dar grande importância, os restantes textos da primeira badana e da contracapa, ciente de que os
editores precisam de vender e que não valia a pena prender-me aos elogios de primeira vista que nesse local estratégico são colocados segundo a inevitável lógica de mercado.
Não! Seria pela leitura que me competia avaliar e, como a mente fica por vezes
armadilhada com leituras de leituras, resolvi galgar a apresentação da Professora Vera Lúcia de Sousa Lima, relegando-a para o final e, de espírito imaculado, vestido apenas com minha ignorância e com os meus preconceitos não descartáveis, vinquei na página dezassete e dei início à leitura da primeira crónica.
A leitura do livro prolongou-se por vários dias, até porque a forma de crónica — texto curto e independente — proporciona uma leitura avulsa que não deixa de ter as suas vantagens.
No gota a gota da leitura as ideias e sensações de cada crónica sedimentam melhor no interprete e a lentidão favorece a acuidade intelectual. E se agora as crónicas se agrupavam sob a unidade de um livro — o que naturalmente me agendava a ansiedade hermenêutica da articulação das partes e do todo —, provável é que a sua produção tivesse sido feita de uma forma individualizada e, seguro era que tinham sido
publicadas como peças que valiam por si.
Sim, desculpem. Sei que o auditório e o autor devem estar impacientes. É justo. É no que dá esta ideia meio estranha de «cronicar» crónicas. Há que desenvolver. Afinal, estou aqui para falar do livro Urgente é a vida de Alcione Araújo. Vou poupar mais descrições do percurso de leitura individual das crónicas e passar a uma abordagem mais estrutural da obra, que é como quem diz abeirar o que a caracteriza na sua especificidade, o que
singulariza o seu universo.
Parto para esta tarefa com uma suspeita ou conjectura: a de que o autor se serve
das crónicas para filosofar sem os estigmas da filosofia; para pensar e fazer pensar
sem as exigências do estatuto de especialista; para um gesto de interventiva partilha sem
outras fronteiras que o prazer da conversação na simplicidade de uma linguagem que se mima com o gosto da elevação literária. Parti também ciente de que as crónicas apresentadas neste livro não são crónicas datadas nem presas a acontecimentos, mas sim abordagens temáticas que transcendem a particularidade de enredos e nos conduzem a um plano
literário-reflexivo que se frui e dá que pensar.
Analisante, a tarefa do leitor-apresentador, passa pela categorização. Por isso tentei categorizar.
Em primeiro lugar, os diferentes registos, sintonias ou, também, porque não, chamar-lhes humores, que encontramos neste livro de crónicas.
Detectei um tipo de crónicas mais deliberadamente sérias (ainda que nunca pesadas). São elas as que, de uma modo genérico, estão associadas a temas de maior incidência social e politica e que Alcione Araújo reconduz sempre à sua preocupação mais funda e entranhada, preocupação que tem no seu reverso um sonho: o da formação para a cidadania e para a humanidade, numa sociedade onde a cultura e a educação não vivam em regime de apartheid, onde a educação e o profissionalismo não se cinja ao espaço redutor do adestramento, onde o culto da palavra se sobreponha à truculência e, finalmente, onde o cultivo das artes faça parte de promoção da inteligência. (Cf. Corações e mentes)
Encontrei também aquilo a que resolvi chamar o registo do retracto fílmico, mordaz, irónico, alimentado de um humor vertido em prazer de escrita e propício a impressionar e estimular perplexidades e deslumbramentos, funcionando como
um take que nos atinge e nos deixa em fruição pensativa (Cf. Anjos caídos, Amor sob escombros, Beija-flor, Folião enganador, Acolha-o com alegria, Amor não se aposenta, Réu e juiz, O tortuoso band aid)
Destaquei ainda o registo das reincidências temáticas obsessivas: a mulher, a paixão e o amor, o tempo e a vida.
Assinalei finalmente um registo mais reflexivo-interrogativo, que carrega sempre
algo de protesto deceptivo e de diagnóstico quanto aos modos de vida actuais.
Temas como as consequências de se viver numa sociedade massificada que conduz à despersonalização e à estupidificação, a tirania da velocidade impressa nas nossas vidas sob a égide do consumismo, a moldagem dos quadros mentais segundo a cínica supremacia do económico e da viabilidade financeira, a desgraça ecológica que tornou o homem em detrito dele mesmo, a mitologia do homem de sucesso,
a importância da palavra como meio de partilha e luta contra o caos, a reflexão sobre a vida e a morte (cf. Tempo, tempo, tempo» ou o homem no tempo (cf. «Vida e morte») e a enigmática natureza do homem, são temas deste registo (cf. «E o homem, o que será?»).
Em qualquer destes registos, há rasgos marcantes e comuns: por exemplo a mistura da facticidade mundana — vertida em temas, retratos, episódios e observações — com o fascínio pelo humano e com valor do pensamento e da reflexão.
Nas suas crónicas o autor não se furta aos enfrentamentos existenciais nem deixa de mapear desconfortos e
perplexidades, deslumbramentos e júbilos, nostalgias e tentações. No que escreve, ele está implicado. Não como detentor de opiniões assertivas, mas como alguém que experiencia os sabores vida e da condição humana e procura interpretar e organizar o jogo dos seus eventuais sentidos.
Por outro lado, quem nos escreve não é uma pessoa que goze do conforto da inserção no mundo, mas antes alguém que — numa espécie de vício em distanciamento fenomenológico, incontornavelmente ávido e critico — se procura descobrir, a ele e a um humano sempre enigmático, através de perguntas que de uma forma subjacente ou explícita instala na tecedura do seu discorrer literário.
Não vou mentir. Estava curioso em descobrir traços que permitissem desenhar o perfil do nosso autor. Do brilhantismo literário, não me restavam dúvidas depois da leitura. Mas como seria a pessoa que escrevia daquela forma? Que
gostos teria? Como seria o seu dia-a-dia?
Que era um homem que encontrava na cultura o meio de excelência de elevação do homem ao humano, isso dizia-me claramente a crónica a que já fiz ilusão, intitulada «O meu sonho». Todavia, quanto ao humano, esse colocava-o o autor sob o signo do mistério e, mais precisamente, como o mais «indecifrável enigma do universo» (Cf. «E o homem, o que será?»). Pois, como se escreve no refrão da cónica: «Um homem é um homem. É capaz de tudo. Este é o seu mistério».
No que diz respeito à sua própria pessoa a crónica «O cronista abre o peito… e não há nada», redigida como resposta a e-mails de leitores curiosos, o autor confessa-se
idiossincrático: revela-nos que é avesso a sair de casa e não gosta de multidões (ainda que por vezes, e para sua própria surpresa até dê por si a assistir a um show da Maria Rita e de lá volte siderado com a epifania presenciada (cf. Epifania de Maria, a Rita)), que
detesta fazer compras em grandes superfícies comerciais, que não bebe nem fuma, que ganha náuseas quando as mulheres abusam do perfume, que não suporta o mau hálito, que se perturba com pessoas que falam alto e que fazer a barba e escovar
os dentes não são de todo tarefas do seu agrado. Emociona-se com a arte, por exemplo, quando um
concerto que é transmitido pela televisão o apanha e o faz ser atravessado pelo deslumbramento (cf. Abençoada arte) e, quando metido em desfiles de carnaval, sente-se deslocado e
reconhece-se como um folião enganador (cf. Folião enganador).
Mas outras crónicas, não directamente direccionadas para o desvendamento do autor, dão-nos mais pistas e informações. Por exemplo, os óculos que usa desde a infância, apesar dos préstimos correctivos que seguramente lhe têm proporcionado, carregam uma carga simbólica negativa, senão mesmo traumática. Privaram-no, ou diminuíram-no, na prática de desportos, nomeadamente, do futebol. Um rude golpe. Por outro lado, como
os óculos não se compatibilizam grande coisa com o imaginário das adolescentes em deslumbramento perante o masculino, eles representavam
uma dificuldade acrescida, pesando ainda mais à dura consciência de que já por si não era bonito.
Por outro lado, o nosso autor não é possuidor de apenas uma alma, porventura sossegada na sua unidade. Tem pelo
menos duas (cf. «Minhas almas») e, talvez mesmo, uma pluralidade delas. É pois compreensível que cite recorrentemente a frase Pirandello «Eu sou tantos quantos são os que me vêem» (cf. «Empresta-me os teus olhos») e que, diante do espelho fique confuso e dividido, como que censurado pelo
olhar outro que o espelho lhe devolve e que lhe cobra o que poderia ter sido e
não é. Finalmente desabava através de um verso do poeta Manuel de Barros, que converte em título de uma das suas crónicas e cuja aplicação estende ao género humano: «O que mais sinto em mim é o que me falta». Somos pois constituídos por uma falha originária.
Aliás, para além da falha originária, somos também assolados por esquecimentos e desatenções incompreensíveis que nos indicam, de facto, que o que nos é mais próximo permanece frequentemente como o mais distante e desconhecido.
Se o autor das crónicas assume a sua fragilidade psicológica relativamente às dores e às doenças, que dizer quando descobre que tem um corpo que lhe permanecia estranho, longínquo e desconhecido? (cf. Corpo ao corpo). Não, não trocem dele. A coisa é séria mesmo e deveria constituir-se como uma inquietação generalizada. E mesmo alargada ao fenómeno de outros tantos estranhamentos a que nos votamos e perante os quais, de
uma forma tão prepotente como ingénua, nos propomos outorgar o controlo, refugiando-nos em doutos, assertivos e
especializados conhecimentos e em sofisticadas e mirabolantes técnicas. Mas é aí que se esconde a escura raiz do grito: nesse volte face que, à luz da insuspeitada surpresa, rouba algo à familiaridade corrosiva do quotidiano e o transforma em objecto espantoso e
extraordinário (cf. A escura raiz do grito). O impensado e o desconhecido são constitutivos do que somos e do que julgamos saber. Donde, um conselho de
sabedoria prudente, ainda que desenvolvido pelo autor em tom de humor sarcástico: há que fazer a apologia do lento contra a aceleração voraz dos dias (cf. A descoberta do lento).
Mas retomemos a nossa focalização na caracterização do escritor destas crónicas.
Apesar de confessadamente misantropo, o nosso autor encontra um aconchego
prazeiroso na arte da conversação gratuita. Nostálgico do tempo em que os cafés ainda eram centros culturais que acolhiam debates e discussões (cf. «Carpintaria literária»), é com tristeza que hoje constata a dominância da bitola consumista: consome ou pira-te — eis a nova regra que podemos facilmente descortinar nos movimentos invasivos do
garçon que com os seus gestos intimidantes procura concretizar a directriz patronal
da viabilidade económica. Ou então, tiranizados pela agenda da televisão, limitamo-nos a deglutir de olhos postos no ecrã e a prestar vassalagem à caixa sob a forma leve do comentário. E não há que estar informado? De saber o que se passa?
Mas, o prazer que o autor tem pela conversação, tem raízes profundas.
A eleição da mesa como o objecto caseiro da sua preferência (cf. «A mesa») é ocasião para exprimir a saudade pelos tempos idos da comunhão saudável, em que a conversação em torno da mesa e o estar em família eram partilha que ensinava a amar.
A urgência de inflectir de novo rumo à palavra como forma de preservar e reaver um humano à beira do precipício — palavra que como um cometa cada vez mais se distancia e nos deixa no breu da
noite — também esta urgência nos é apresentada como a maior hipótese de ainda poder agarrar a esperança, de a agarrar pela cauda. São belas as palavras que Alcione escreve a este respeito numa crónica inspirada pelo ritos de passagem e renovação que a entrada num novo ano sempre evoca:
«A palavra é a nossa maior arma na luta contra o caos. É o dialogo, jardim onde floresce a palavra, que afugenta a barbárie. E a linguagem, maior de todas as criações humanas, seu inexcedível património, meio de orar aos deuses, imprecar contra o destino, lamentar a dor,
glorificar o prazer, é, sobretudo, o meio do homem entender o homem. O resto é silêncio» (Esperança agarrada pela cauda, p. 253).
Para além de impressionante e bonita, a passagem é uma excelente oportunidade para inflectirmos o discurso rumo à síntese das principais ideias que nestas crónicas habitam, rumo ao pensamento e à inteligência que vestem o conteúdo dos seus sentires e convicções.
Há um busílis central: o do fenómeno da massificação. A passagem que encontramos na crónica intitulada «Predadores da alma», ainda que não fosse desse assunto que o autor queria falar, dá o tom. Vale a pena ler.
«Mas as almas estão feridas. A grande maioria dos olhos está baça, opaca, sem luz. Como se um ar parado acumulasse nuvens na frente do sol, e as
pessoas, perdidas dentro da neblina, não conseguissem enxergar nada à frente. Caminham inseguras e cautelosas, sem saber direito onde estão, nem que riscos as ameaçam. E lá vão elas, cada qual cuidando de si, protegendo o seu pedacinho visível do percurso, isso enquanto ainda não se perdeu das mãos amigas, e depende de segurar a de um estranho.
Estamos começando a perceber o que é a extensão e a profundidade de viver numa sociedade de massa. A quantidade altera
profundamente a qualidade. Já não somos o que fomos, nem vislumbramos o que seremos. O sentimento é de que já não há mais um mesmo barco, embora possa haver um mesmo mar. Acentua-se o sentimento
de estar perdido, de não se estar entendendo tudo o que acontece. Resta a sensação de extrema solidão num mundo super-habitado. Se antes se perguntava de onde viemos e para onde iríamos, hoje se pergunta o que fazemos aqui e o que fizemos disso aqui. Num
darwinismo terminal, fomos largando, pelos imponderáveis caminhos da vida, as nossas referências pessoais, familiares, politicas, filosóficas, religiosas. Valores em crise, fé em declínio, e eis-nos nos braços da mistificação a varejo. Seguimos nus, caminhando contra o vento gelado, coração apertado pelo medo» (p. 78).
É pois notória a angústia com as consequências da massificação e, nomeadamente, com a amputação da sensibilidade que especifica o humano nas suas possibilidades criativas e
comunitárias mais elevadas. Sim, dessa sensibilidade que potencia os laços de semelhança em que se baseiam a comunhão, o reconhecimento, a solidariedade, o entendimento e o respeito do homem pelo
homem. Cortar esses laços significa votarmo-nos ao ocaso do pensamento e da cultura, às derivas da estranheza perante o humano, tornarmo-nos incapazes de fazer
prevalecer uma ordem baseada em apreços e em valores sobre um caos que nos torna cada vez mais erráticos e truculentos, prezas fáceis do imediatismo consumista, das voragens mediáticas e dos adestramentos para a produção.
Construímos riqueza trocando o sucesso pelo esvaziamento de nós próprios (cf. «O vencedor»), perdendo o sentido do dom e da gratuidade, ignorando a temporalidade que nos
limita a vida, inviabilizando — por défice de amplidão intelectual ou de vontade, e por excesso de ganância — o suporte ecológico terrestre que nos acolheu (cf. Primavera), refugiamo-nos num individualismo
avestruístico com que auto-desculpamos o nosso conformismo e através do qual nos rendemos confortavelmente à condição de impotência. Livres, sempre livres, mas impotentes. Está tudo mal, mas nada há a fazer. A não ser, é claro, que seja economicamente viável.
Ora a cultura não é economicamente viável, a poesia não é economicamente viável, a arte não é economicamente viável. E também por isso se amputa a educação da cultura. Porque o que é preciso são profissionais, não pessoas, nem artistas. Funcionários, não irreverentes, criativos ou críticos. Executores de ordens, não consciências que ousam discutir.
A massa suscita a máquina organizadora e empola o espírito capitalista, o maquinal homogeneíza e substitui os nomes por números, os números, exploradores ávidos, querem sempre números melhores e exigem medidas, as medidas já não vêem rostos, apenas supostas melhorias estatísticas.
E eles, os rapazes nas ruas, deixaram de ser como nós (cf. Nós e eles). E alguns, treinados para matar e enviados para guerras que nem sequer
entendem, matam abstractamente na razão directa da sua função heróica (cf «Matar e matar»).
Esperança? Sim, há que tê-la. E muitas vezes somos acalentados por inesperados sinais. Foi o que
aconteceu ao autor das crónicas quando recebeu um e-mail do jovem Brenner. Dava-lhe este os parabéns e incitava-o a continuar com o bom trabalho de alimentação das mentes realizado com sua arte literária.
Afinal, sempre há motivos para pensar que há quem resista à homogeneização do massificado. Uma esperança que o autor transporta para os votos endereçados ao seu jovem leitor: «Tomara que ele resista à mediocridade que está banalizando todos os valores que nos fazem seres humanos, racionais, sensíveis, frutos de um longo processo civilizatório. Que se preserve da truculência que está vencendo os argumentos. Que sobreviva à barbárie que avança e instala o medo do futuro» (p. 198).
Alcione está pois bem ciente da tese que várias vezes reitera: a educação tem de ser o braço sistematizado da cultura, a educação deve preocupar-se, antes de mais, com a formação do solo fértil da sensibilidade, sem o apuramento da qual as capacidades mentais do humano
ficam incontornavelmente desalmadas (cf. «Coração e mentes») e o sentido de cidadania despido da consciência que lhe deve servir de base. Ou, ainda, parafraseando o título de uma das crónicas deste livro, para que não encontremos manchas sujas em mentes férteis. (cf. Manchas sujas em mentes férteis»).
Afinal, entre vida e morte, nesse passar do tempo de que somos feitos (cf.
Tempo. Tempo, tempo»), o que urge é a felicidade («cf. Vida e morte»), que é sempre algo de diferente do sucesso dos vencedores (cf. «O vencedor»).
Na solidão do real, as possibilidades do virtual tornam-se tentadoras. E não encontramos aí a possibilidade de ter envolvimentos com isenção de pecado carnal e garantia de sexo seguro? A Wandinha que o diga (cf. «A traição») mas, mesmo que não diga, esta era a deixa que eu precisava para encarreirar na temática do amor e da paixão, tão grata a Alcione.
Sobre elas, a crónica intitulada «Eu sou eu, você é você. É certo. Vai durar» apresenta-nos todos os condimentos do ciclo passional, deixando
sub-repticiamente à ponderação dos leitores duas fórmulas: 1 + 1 = 1 (de acordo com a irresistível tendência fusional que caracteriza o arrebatamento da paixão e do amor romântico), (cf. «Abraço») ou 1 + 1 = 3 (numa perspectiva mais avisada, que passou pela fricção quotidiana e reconhece a dimensão de negociação com que todo relacionamento amoroso requer ser cuidado (cf. «O fim do amor romântico»).
Falei atrás em ciclo passional e a expressão parece-me justa. Pois ainda que a memória — mais afoita em reter o dramático de uma perda do que o gratuito de um início — tenda a enfatizar metonimicamente que amor acaba, há contudo que não perder a noção do cíclico na recorrência da sua efemeridade, o que faz Alcione recordar aos seus leitores que, se o
amor acaba, o amor também começa (cf. «O amor começa»).
Sem respeitarem prazos de validade, amor e paixão podem irromper assim, inesperadamente, precoce ou tardiamente, mas sempre
vinculando-nos à vida e, consequentemente, tornando-nos mais apreensivos relativamente à morte (cf. «Paixão, ainda que tardia»).
Contudo, por vezes, sob os escombros de uma tragédia que carrega a morte, o amor ergue-se como obra de arte que nos sensibiliza e
nos faz pensar (cf. «Amor sob escombros»). Mas, para quê pensar sobre o que não se explica? Como o tempo, o amor não se explica pelo raciocínio, ainda cumpra reconhecer ambos como as duas criações fundamentais da cultura humana (cf. «Tempo sem fim, amor sem limites»).
Tão fundamentais que uns sofrem porque não conseguem viver sem as emoções dos doces arrepios da paixão (cf. «De paixões, emoções e arrepios»), outros são capazes de delegar os preparativos do encontro amoroso nas mãos de agências profissionais (cf. «O ágape da alcoviteira»), uns, tresloucados momentaneamente pela ferida do ciúme, matam e condenam-se à tortura de um arrependimento sem fim (cf. «Réu e juiz»), outros persistem em limpar o coração e em se arrumarem para o amor (cf. «Predadores da alma»).
E Alcione pergunta: «Será que não há outras dimensões igualmente emocionantes da nossa experiência de estar no mundo? Toda essa miríade de potencialidades que é um ser humano pode ser paralisada apenas pela expectativa do amor?» (cf. «O ágape da alcoviteira», p. 194).
Para confirmarem que de facto, ainda que a expectativa do amor seja incontornável, ela não tem de dominar assim tão avassaladoramente, leiam as crónicas-filme que Alcione escreve neste seu livro. São verdadeiros pedacinhos do céu literários esses takes em que autor nos faz ver operários sambando em andaimes precários, nos retrata a declaração de amor de um filho que quer renascer da barriga da sua mãe, ou em que descreve com pormenor magistral quão tortuosa pode ser a substituição de um penso rápido em calcanhar feminino e delicioso o nosso voyeurismo.
Finalmente, Alcione Araújo não é parco na sua admiração e fascínio pelas mulheres. Na crónica «Hoje, ontem, sempre, ela: a mulher», com que o livro encerra, faz uma justa homenagem, em tons operísticos, à mulher — esse ser de quem o autor afirma que o estar bonito faz parte da essência (cf. «Por quem as mulheres se enfeitam») — , reconhecendo a impagável dívida que há para com elas.
E está na hora de terminar esta a crónica. Esta imitação que não é imitação mas que não resiste a sê-lo.
É o efeito Zelig, o homem-camaleão de Woody Allen. Ocorre quando a identificação nos atinge de tal forma que acabamos involuntariamente por perfilhar o estilo.
Pode ser fraqueza de personalidade, pretensiosismo ou até cabotinismo. Mas é mais forte e impõe-se. E as palavras saem. Tudo para dizer que gostámos intensamente. Que é bom quando se gosta assim. E que, na urgência que nos exige selectividade, esta crónica-vida assinala um reconhecido momento de prazer e de comunhão e uma profunda admiração pela excelência deste Urgente é a vida, de Alcione Araújo.
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Alcione Araújo, Urgente é a vida, Record, 2004.
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